Brasília - A Polícia Federal entra hoje, oficialmente, nas investigações do escândalo da Parmalat, com a abertura de pelo menos três inquéritos para apurar suspeitas de lavagem de dinheiro e remessa ilegal de recursos para o exterior. O mais provável é que as investigações fiquem centralizadas em São Paulo, onde está a sede da empresa. Mas a Polícia Federal deverá abrir também inquéritos no Rio de Janeiro, onde houve movimentações financeiras do grupo, e no Paraná, já que um grande volume de remessas ao exterior foi feito por agências do Banestado em Curitiba e Foz do Iguaçu.
A PF vai pedir a transferência do sigilo bancário da Parmalat, que já foi levantado pela força-tarefa do governo e do Ministério Público que investiga o Banestado no Paraná. Essa será uma das primeiras providências que serão tomadas dentro dos inquéritos. Além disso, segundo fontes da PF, serão pedidas as quebras do sigilos bancários e fiscal dos diretores e pessoas vinculadas às subsidiárias da multinacional no Brasil.
A PF vai trabalhar basicamente na movimentação feita pela Parmalat via Banestado, mas também vai requisitar documentos das autoridades italianas que estão investigando as fraudes na matriz. ''Acredito que os italianos também tenham interesse nessa troca de informações'', disse uma fonte da PF.
Ontem, o Banco Central (BC) anunciou a proibição das operações de remessas de recursos da Parmalat Brasil ao exterior. A orientação foi repassada a todas as instituições financeiras. Além disso, a Justiça solicitou do BC um levantamento das remessas já efetuadas pela empresa.
O BC está passando um pente fino nas remessas de recursos para o exterior feitas pela Parmalat do Brasil nos últimos anos. A intenção é checar se há algum registro irregular do ponto de vista da legislação cambial.
Segundo uma fonte do BC, no entanto, a instituição não tem como avaliar a origem dos recursos para saber se houve fraude fiscal. ''Esse é um trabalho que cabe à Receita Federal. O máximo que o BC pode fazer é verificar se os registros das remessas foram feitos dentro das regras e se as operações coincidem com o que tem sido declarado recentemente pela empresa'', disse a fonte. ''Se houver algum problema com a natureza do registro, adotaremos as punições administrativas cabíveis. Se houver qualquer indício de fraude fiscal, encaminhamos para avaliação da Receita.''
O diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda, deverá designar hoje um delegado especial para o caso. Ele passou a tarde de ontem reunido com seus principais assessores, examinando documentos levantados pela CPI do Banestado. Esses são os mais fortes indícios de crime no caso Parmalat.
A CPI investiga a atuação do Banestado na remessa ilegal de dinheiro e encontrou movimentações da Parmalat e suas controladas. De acordo com o presidente da comissão, senador Antero Paes de Barros (PSB-MT), documentos recebidos do Banco Central mostram que a empresa remeteu R$ 1,7 bilhão para Uruguai, Estados Unidos e Itália, no período de 1996 a 2002, via contas CC-5 (contas bancárias mantidas no Brasil por não-residentes no País). Essas mesmas informações estão de posse da Receita Federal. Agora, disse Barros, cabe ao governo dizer se essas remessas foram legais.
''Há indícios fortes de fraude'', comentou o senador Romeu Tuma (PFL-SP). ''Se o dinheiro foi mandado via CC-5 e via Banestado, qual é a razão disso? Isso levanta forte suspeitas de irregularidade.'' O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, deverá reunir-se hoje com Barros para analisar os dados levantados pela CPI.

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