Rio de Janeiro - Produzindo 85% do petróleo que consome, o Brasil vem conseguindo resistir sem maiores sobressaltos à atual crise do petróleo no mercado internacional, que já dura cerca de um mês. A expectativa é que, ainda pelas próximas semanas, a Petrobras consiga manter os preços dos principais combustíveis no País. A dúvida que resta é quanto tempo a estatal vai resistir às perdas que vem tendo ao adiar os repasses. As duas refinarias privadas, com menor poder de fogo, por exemplo, já ameaçam paralisar as operações enquanto durar a defasagem de preços, que está acima dos 30%.
Analistas de mercado apostam que a Petrobras deverá manter os preços do diesel e da gasolina ainda em todo o mês de junho. A avaliação foi feita mesmo após a nova alta do barril de petróleo no mercado internacional, que elevou o valor a US$ 42, por conta do ataque terrorista na Arábia Saudita. ''No meu entender, a Petrobras teve uma reserva grande de lucros no ano passado e está segurando enquanto pode, mas não sei quanto tempo mais ela vai suportar'', disse o especialista em petróleo da Global Invest, Paulo Rossetti.
''A Petrobras está entre a cruz e a espada. Se elevar os preços provocará um forte impacto na inflação, num momento difícil para o País. Se não elevar, começará a sofrer quedas em sua rentabilidade, o que pode inclusive afetar sua arrecadação e prejudicar o superávit primário, que é uma das prioridades do governo'', analisou o especialista de instituição financeira de São Paulo. Em sua opinião, a Petrobras ainda teria entre 30 a 40 dias para efetivamente ''começar a perder''.
O petróleo WTI, negociado nos Estados Unidos, ultrapassou a casa dos US$ 40 por barril no dia 12 de maio - há três semanas, portanto. Desde então, os papéis da estatal brasileira tiveram comportamentos diferentes na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Primeiro, caíram a R$ 67,21, mínima atingida no dia 21 do mês passado, devido à percepção de que a alta dos custos não seria repassada. Neste mesmo dia, o barril WTI estava em US$ 41,14. Depois, as ações começaram a subir novamente, quando os investidores aproveitaram o baixo preço para engordar suas carteiras, e atingiu R$ 73,80 ontem. Este valor, porém, é 14% menor ao fechamento máximo do ano, de R$ 85,84.
O analista de petróleo do CS First Boston, Emerson Leite, acredita que o discurso da estatal de esperar o fim da volatilidade para reajustar os preços está cada dia mais desgastado. Segundo ele, a margem de manobra da estatal está menor, o que torna o adiamento do reajuste mais insustentável. Para Mônica Araújo, do BES Securities, a tendência é de que a estatal espere uma análise do mercado no mês de junho, que é quando o verão no Hemisfério Norte pressiona o aumento na demanda por gasolina. ''Se os estoques conseguirem cobrir esta demanda, os preços devem cair e aliviar as pressões sobre os preços no mercado interno'', acredita.
Rossetti, da Global Invest, concorda. ''Mesmo que a Opep decida aumentar a produção na reunião do dia 3 de junho, o mercado deve continuar tenso por causa do verão americano. Só depois é que as cotações devem ter uma queda mais forte, para cerca de US$ 34 por barril'', afirmou.

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