As novidades no mercado brasileiro de transgênicos para os próximos anos deve incluir a possibilidade de contar com soja, milho e cana mais resistentes à estiagem, além de feijão menos suscetível a pragas. Porém, faltam estímulos à pesquisa nacional no segmento e sobram preconceitos às melhorias genéticas, conforme o Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB). A organização não governamental, que visa difundir informações sobre o segmento, fez ontem um workshop voltado a profissionais de imprensa, na ExpoLondrina, para tentar facilitar o acesso de informações ao público em geral.
O encontro contou com pesquisadores da Embrapa Soja, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Marcelo Gravina, da UFRGS, destacou os avanços obtidos no setor nas últimas três décadas, como o aumento de produtividade de 264% no País, enquanto o avanço em área cultivada foi de apenas 41%. Ele lembrou ainda que são 13,1 anos, em média, desde o início dos estudos até o lançamento comercial do produto transgênico. "É mais para atender a toda a regulação do que pelo tempo de pesquisas."
Com o preconceito sobre transgênicos de forma geral, disse o pesquisador da Embrapa Alexandre Nepomucemo, o Brasil passou por uma "moratória branca", que paralisou estudos e financiamentos enquanto se discutia a segurança dos OGM. "A falta de informações fez com que o uso dos transgênicos fosse atrasado em sete anos no Brasil", citou. Ele lembrou ainda que na Embrapa, por ser uma empresa pública, há hoje preocupação e pesquisas também para o vírus do mosaico dourado do feijoeiro, por exemplo, e não apenas para culturas maiores, como a soja. "Todo o ferramental para provar que a planta é segura é utilizado."
Prejuízo bilionário
Também pesquisadora da Embrapa, Liliane Henning afirmou que é feita em Londrina pesquisa para desenvolver um tipo de soja mais resistente à estiagem. Na última década, ela apontou que foram US$ 27 bilhões em prejuízos com o problema no País e que testes feitos apontam a possibilidade de ter até 44% menos perdas na cultura com os OGM. "É um trabalho que é feito hoje também com a cana, com o algodão, com o milho", contou. "Mas o custo hoje é de US$ 140 milhões em 15 anos de pesquisa", completou.
Para Nepomuceno, é importante que sejam criadas soluções nacionais, como a desenvolvida para a cana em parceria com o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), para que os agricultores não fiquem sujeitos apenas a comprar produtos de grandes multinacionais. Porém, ele reclamou da falta de orçamento para pesquisas e pediu maior união entre as iniciativas público e privadas.
O professor da UFMG e livre-docente da Universidade de São Paulo (USP) Vasco Azevedo também criticou o preconceito contra os transgênicos. Ele citou o excesso de legislações acerca do tema e o inchaço na quantidade de órgãos ouvidos sobre a questão. Para ele, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação deveria ficar responsável pela questão e sem a participação de representantes que não tenham avaliações técnicas.

Uso amplo
Entre 2010 e 2014, a área com cultivo de organismos geneticamente modificados (OGC) saltou de 25,4 milhões para 42,2 milhões de hectares, conforme o Serviço Internacional para Aquisição de Aplicações Agrobiotecnológicas (ISAAA, na sigla em inglês). Gravina citou ainda que 62,1% das soluções transgênicas no Brasil são vegetais, mas que 27,6% são vacinas e medicamentos usados desde os anos 80, como a insulina.
O Conselho de Informações sobre Biotecnologia foi criado no Brasil em 2001 e busca atuar na difusão de informações técnico-científicas sobre biotecnologia e suas aplicações. Na Internet, é possível conhecer melhor a entidade por meio do site www.cib.org.br.

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