Curitiba - A lógica da maioria dos consumidores brasileiros é simples. A análise de um produto se restringe a preço, qualidade e estética. Às vezes, claro, leva-se em conta só o preço ou só a qualidade e a estética, dependendo do bolso do consumidor. O trabalho de um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), no entanto, pode colaborar para que o consumo também esteja ligado à preocupação com o meio ambiente. Trata-se da criação de móveis e objetos a partir de resíduos da árvore, por exemplo, ou mesmo a partir de materiais com menos impacto na natureza quando descartados.
O pesquisador Rodrigo Karam, do núcleo de design e sustentabilidade da UFPR, participa de um grupo que aproveita o nó do Pinus - parte que hoje é descartada da árvore - para criar móveis. O grupo retira o nó do Pinus de uma árvore extraída com o selo FSC (Forest Stewardship Council), o que significa que a madeira é rastreada desde o plantio até o descarte. É possível saber, portanto, se a madeira foi extraída de forma correta, com o uso de mão-de-obra qualificada, por exemplo.
''Se um fabricante brasileiro quiser exportar a madeira para a Europa ele vai precisar do certificado FSC. Mas os consumidores brasileiros ainda não exigem um produto que não agrida a natureza. Não interessa de onde vem o móvel, como ele foi feito e qual será seu destino'', afirma Karam. O móvel a partir do nó de Pinus também é feito só com cola branca e encaixes para facilitar o descarte.
Mas o nó do Pinus não é a única parte não aproveitada na extração. O pesquisador afirma que 50% da árvore ''se perde'' ao ser retirada do local. ''É um desperdício alto'', afirma ele.
No caso do Brasil, ainda há outra questão: um produto ambientalmente ''correto'' é, ainda, mais caro do que a média apresentada no mercado. ''O consumidor final é complicado. Porque o ideal é que as pessoas tivessem informações sobre a importância de se comprar um produto assim. Sustentabilidade não é só separar o lixo''. Karam admite que hoje há um nicho restrito de consumidores que podem pagar por um produto do tipo. Ele defende, no entanto, que o preço poderá baixar quanto mais pessoas entenderem a importância de um meio ambiente sustentável. ''Nós deixamos a tarefa para o consumidor''.
O preço do produto ambientalmente ''correto'' está ligado ao fato dele ser produzido quase que artesanalmente, o que também o transforma em ''peça única'', explicou Karam. O móvel criado a partir do nó do Pinus, por exemplo, tem uma textura diferenciada. ''As pessoas não fazem produtos assim porque dá trabalho, mas, a partir do momento que for uma exigência do consumidor, a coisa muda''.
Segundo ele, também trata-se de equilibrar o custo e o benefício. ''Um exemplo simples: uma lâmpada fluorescente consome menos, mas é feita de mercúrio. Já a lâmpada incandescente não possui um material que causa tanto impacto para a natureza. Qual das duas lâmpadas você vai comprar?''. A base das criações dos grupos de trabalho do núcleo de design e sustentabilidade é a sigla ACV, ou seja, a Avaliação do Ciclo de Vida da matéria-prima usada no produto. Um dos grupos trabalha com restos de vidro - de perfume, de remédio, de carro -, que se transformam em luminárias e objetos decorativos.

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