Uma atividade que gere empregos e fixe o homem no campo, que promova o desenvolvimento de agroindústrias e abasteça um mercado dependente da importação, e ainda contribua para recomposição florestal do Estado. Este conjunto de fatores positivos pode estimular o desenvolvimento de uma nova cultura no Paraná: a heveicultura - plantio de seringueiras para produção de borracha. Para comprovar a viabilidade da cultura no Estado, o pesquisador da Embrapa/Iapar, Jomar da Paes Pereira, montou o Projeto de Implantação da Heveicultura no Noroeste Paranaense com o Suporte à Agroindustrialização.
‘‘O Noroeste do Paraná talvez seja a região mais propícia para o cultivo da seringueira no Brasil’’, afirma. Segundo Jomar, apesar da sua ‘pobreza’ química, o solo do Noroeste (Arenito do Caiuá) apresenta características melhores do que o da região Amazônica, onde a seringueira é nativa. ‘‘O solo de arenito é profundo facilitando o desenvolvimento das raízes’’, comenta.
Outra vantagem da região é o clima, que apresenta bom regime de chuva durante o inverno e a temperatura, mais baixa, impede que a principal doença da cultura na região Amazônica, o mal sul-americano, ataque as árvores. No Noroeste do Paraná o frio bloqueia o desenvolvimento do fungo Microcyclus ulei , que provoca a doença das folhas. Na região Amazônica este fungo provoca a morte da seringueira e compromete a produção de borracha.
Pereira observa que a região do Arenito Caiuá enfrenta problema com degradação do solo, onde as pastagens já estão empobrecidas e os espaços deixados pelos antigos cafezais poderiam ser ocupados por seringueiras. ‘‘Seria uma boa forma de executar a manutenção do solo da região, que é bastante suscetível à erosão. Além de recompor a biomassa do solo’’, comenta.
O pesquisador diz que o Paraná tem uma área apta para o cultivo de seringueiras de 3,49 milhões de hectares. Mas o projeto propõe o plantio inicial de 7 mil ha, o que representa 0,2% da área apta para a cultura. Esta área seria suficiente para o plantio de 3,5 milhões de árvores, que produziram até o 10º ano de 8 mil a 10 mil toneladas de borracha seca/ano.
Sem-terra Pereira observa que o projeto vai de encontro com as intenções do governo do Estado de promover a fixação do homem no campo e o desenvolvimento da agroindústria local. Segundo Pereira, o projeto prevê a viabilização do pequeno produtor descapitalizado e também pode beneficiar os trabalhadores sem-terra no Paraná, estimados em 60 mil famílias.
A região Noroeste tem sua estrutura fundiária basicamente formada por pequenas propriedades, com área menor que 10 ha, e baseada na mão-de-obra familiar. ‘‘A região se assemelha bastante com o sistema produtivo do Sudeste Asiático (maior produtor de borracha), onde 81% da produção esta nas mãos de pequenos produtores com áreas entre 0,5 e 5 ha’’, comenta.
No caso dos trabalhadores sem-terra, Pereira sugere ao governo a implantação de cinco pólos de heveicultura com o plantio de 50 ha por ano, até atingir 200 ha em cada pólo. Cada família sem-terra seria assentada em uma área de 10 ha, dos quais 4 ha seriam cultivados com seringais.
O pesquisador diz ainda que a heveicultura também pode ser praticada nas Vilas Rurais criadas pelo governo. Ele diz que poderia se formar bosques de seringueiras que seriam explorados em regime comunitário. ‘‘E isso não comprometeria a oferta de mão-de-obra proposta pelo programa de Vilas Rurais, uma vez que 4 ha de seringueiras pode ser conduzido por uma pessoa’’, comenta.
A seringueira começa a produzir entre o 6º e 7º ano, e que isso poderia desestimular o produtor. Mas este fator é contornado pela possibilidade de se utilizar culturas intercalares como diversificação de renda. ‘‘O produtor pode cultivar até o 4º/5º de implantação do seringal, culturas anuais como arroz, feijão, milho, abacaxi e outros produtos que poderiam garantir renda’’, afirma.
Vontade política Pelo projeto proposto por Pereira, o cultivo de seringueiras poderá beneficiar entre 1,75 mil e 2,3 mil famílias. Cada família pode obter uma renda mensal entre R$ 160,34 e R$ 240,51/ha durante 10 meses por ano, a partir do sétimo ano de implantação dos seringuais, por um período de 30 anos.
Além da implantação dos seringais, o projeto do pesquisador prevê também a instalação de usinas e mini-usinas de beneficiamento do látex, que poderiam ser conduzidas pelos próprios produtores como forma de agregar valores à produção. Pereira observa que isto poderia ainda atrair novas indústrias para o Paraná.
A implantação do projeto, segundo o pesquisador, depende acima de tudo de vontade política. Ele afirma que a implantação de um hectare com seringueira custa aproximadamente R$ 1,6 mil, considerando gastos com mudas, insumos, e defensivos. ‘‘A mão-de-obra é familiar’’, observa. 50% de montante é aplicado no primeiro ano para a implantação da cultura, e o restante parcelado em cinco anos. Ele diz que a partir do 7º ano, quando se inicia a sangria, o agricultor começa a amortizar sua dívida com a própria produção, que pode ser quitada num prazo de cinco anos.

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