São Paulo Mais otimista com o novo governo, porém com os pés plantados no chão. Este é o perfil atual do consumidor brasileiro em relação ao de 1997, quando o real navegava nos calmos mares da estabilidade monetária. A conclusão é de um estudo realizado pela consultoria Intescience, que entrevistou mil brasileiros no último trimestre de 2002 e cruzou os dados com os obtidos em levantamento semelhante, realizado cinco anos antes.
De acordo com a diretora de planejamento da consultoria, Ivani Rossi, um dos pontos mais interessantes revelados pelo trabalho foi a predisposição dos consumidores de baixa renda, cujos vencimentos variam de 2 a 10 salários mínimos, de obter o mínimo de progresso.
Do total, 50% dos entrevistados de baixa renda afirmaram que a vida melhorou e vai continuar melhorando nos próximos anos. Na classe média, esse porcentual cai para 32%. Entre a camada mais pobre da população, a idéia de que compraram muitas coisas para a casa nos últimos oito anos, e que vão continuar comprando, é compartilhada por 63% dos entrevistados, enquanto que, para os de classe média, esta percepção cai para 44%.
''O mais interessante é que, embora a situação político-econômica fosse mais favorável em 1997, a esperança por uma vida melhor não era tão evidente como é agora'', destaca Ivani. Ela ilustra a afirmação com o fato de que a maior parte dos entrevistados (45%) prevê melhor qualidade de vida nos próximos anos. Em 1997, o grosso da amostragem (57%) apostava na manutenção do quadro, enquanto apenas 31% diziam acreditar em melhorias.
Emprego Uma vez que se aprofunda a pesquisa, mais esse otimismo fica evidente em todas as classes sociais. Em relação ao emprego, por exemplo, 53% dos entrevistados na última pesquisa apresentaram expectativa positiva, afirmando acreditar que aumentaria muito ou pelo menos um pouco. Na apuração anterior, na época do governo Fernando Henrique Cardoso, esse porcentual era de apenas 23%. Entre a amostragem de baixa renda, o otimismo quanto às perspectivas de emprego mostrou-se mais forte, passando de 25% para 56%, uma variação de 31 pontos porcentuais. Na classe média, a variação é de 28 pontos porcentuais.
O mesmo se dá em relação à expectativa de salário. Da amostragem total, 50% disseram acreditar que os rendimentos aumentarão muito ou pelo menos um pouco nos próximos anos. Em 1997, esta expectativa correspondia a 48% dos pesquisados. Entre os entrevistados de baixa renda, esse otimismo é comum a 56% dos que responderam à pesquisa, ante 48% do trabalho anterior. Na classe média, o porcentual passou de 48% para 50%.
Inflação Quando a questão é inflação, contudo, fica mais evidente que a consciência de que a situação não é das melhores se contrapõe ao otimismo, em geral, elevado. Para 33% da amostra, a inflação deve aumentar. Este porcentual não passava de 15% em 1997. Na baixa renda, 39% apostam no aumento, contra 14% da pesquisa anterior. Na classe média, a percepção de alta nos preços é comum a 27% dos entrevistados, 15 pontos porcentuais a mais do que no governo passado.
''Essa é uma das provas de que a população está otimista, porém, com algumas reservas'', diz Ivani. ''Isso se deve a um maior nível de informação das pessoas, independente dos estratos sociais aos quais pertencem.''
Novos temores Os medos que envolviam a população também mudaram, refletindo também esse novo perfil dos brasileiros. No governo anterior, o que mais preocupava os entrevistados era a violência (26%), o desemprego (24%) e a impunidade (15%). No início do governo Lula, em contrapartida, o receio de que as promessas não sejam cumpridas foi citado por 20% dos entrevistados, assim como a alta da inflação (11%) e dos juros (9%).
''Em última análise, concluímos que o sucesso do novo governo junto à população depende de um trabalho forte de comunicação, para que as pessoas fiquem sabendo, ponto a ponto, o que está sendo feito'', opina Ivani. ''Do contrário, todo esse otimismo se transformará em uma profunda decepção, que pode até mesmo atrapalhar a administração.''

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