São Paulo - Miúcha foi criada comendo carne moída de segunda, misturada com arroz fresquinho e cenoura ralada. Mesmo sendo um delicado cachorro da raça de origem mexicana chihuahua, sobreviveu por 16 anos e, segundo sua dona, foi muito feliz. Agora, ela é dona de dois shnauzer, a divertida raça alemã, e gasta com eles por mês cerca de R$ 500 com ração, tosa, vacinas e outro luxos que não existiam para o mundo canino nos tempos de Miúcha.
O inflacionado orçamento doméstico da professora de piano Adélia Pimentel - moradora de Santa Cruz do Rio Pardo, interior de São Paulo - com os seus cães não é exceção. Está virando regra nessa região do País. Por lá, as famílias já gastam 10% acima da média nacional com animais de estimação. Essa constatação está no estudo da empresa de pesquisas LatinPanel, que mapeia as características de consumo dos 44 milhões de domicílios espalhados por sete regiões do País, em 2007.
Um detalhamento que identificou peculiaridades como o fato de os cariocas gastarem 22% a mais em diversão do que a média das famílias brasileiras nesse item. Ou então, o alto consumo com roupas no Sul do País, que foi 16% acima da média nacional no período.
O levantamento vai além do tradicional painel do consumo, que trabalha com dados da cesta básica que leva em conta apenas os gastos com alimentos, bebidas, higiene e limpeza. No atual estudo, aparecem gastos anuais presentes no cotidiano das famílias, como lazer, educação, saúde, transporte, habitação e alimentação fora de casa. ''É uma pesquisa mais abrangente'', diz a gerente da LatinPanel, Maria Andrea Murat.
Em relação à versão do mesmo estudo realizada em 2006, chamou a atenção o maior equilíbrio no orçamento das famílias, com os gastos abaixo da renda. A renda média mensal do brasileiro em 2007 foi de R$ 1.463, ante um gasto médio mensal de R$ 1.417. ''Isso aponta um pequeno superávit no consumo nacional e mostra que as pessoas estão mais organizadas e para gastar'', diz ela.
Houve aumento de consumo. Nas 65 categorias pesquisadas, apresentaram crescimento médio de 4%, em volume comprado, e de 9% em valor. Mais do que comprar mais, as famílias também passaram a adquirir produtos de marca, que são mais caros, e isso explicaria o aumento maior em valor do que em volume.
A tentativa de traçar um mapa de consumo das sete regiões - Grande São Paulo; interior de São Paulo; Grande Rio; interior do Rio e Leste do País; Sul; Norte e Nordeste; e Centro-Oeste - confirma o que o bom senso já diz. As diferenças regionais se refletem na forma de consumo. No Norte e Nordeste ainda se concentram as maiores famílias. O tíquete médio é um dos mais baixos do país, R$ 9,21, e as compras são feitas picadinhas. Eles vão 16 vezes por mês às compras. O oposto do que ocorre no Sul do País, onde está o maior tíquete médio, R$ 16,50, e eles vão apenas nove vezes às compras por mês.
Em cada região uma tendência de consumo ganha destaque. Entre os paulistanos, o ano de 2007 foi dedicado à habitação. Os gastos foram 15% maiores do que a média nacional. Basta um rápido tour pela cidade para ver o boom imobiliário se materializando. Todos os itens relacionados à habitação estão em alta na região.
E se os cachorrinhos de dona Adélia ajudam a engordar os negócios dos Pet Shops, no interior de São Paulo, na região do Grande Rio, a população se esmera para manter a fama de culta. Os gastos com lazer são os maiores do País. Ex-capital federal, o Rio sempre cultivou esse marketing. ''É uma cidade com apelo cultural e vasta programação'', diz a médica Nadis Vieira Santa Anna. ''Todo mês vou ao teatro. Toda semana vou ao cinema. Frequento muito livrarias e leio, no mínimo, nove livros por ano. Gosto de gastronomia, assim como meu marido, e sei que se somar tudo gasto em torno de R$ 1 mil por mês com essas atividades.''

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