Pesquisa derruba mito do desperdício na construção
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terça-feira, 14 de abril de 1998
Agência Estado 
Arquivo FolhaTese contrariadaPerdas no uso de materiais básicos foram menores do que se previaDezesseis universidades acabam de concluir um trabalho que põe fim ao mito de que o desperdício na construção de uma obra chegaria a 30% de seu peso. Ao estudar 80 obras, em 12 Estados, a pesquisa mediu, pela primeira vez, o consumo e as perdas para 19 materiais e vários serviços. A construção civil não é inerentemente perdulária, disse Ubiraci Lemes de Souza, um dos dois coordenadores dessa pesquisa e professor do Departamento de Engenharia da Construção Civil da Universidade de São Paulo (USP).
Quatro materiais essenciais para qualquer obra - concreto, tijolos e blocos, aço e argamassa - eram tidos como os grandes vilões do desperdício. A pesquisa é reveladora ao mostrar perdas muito menores do que as imaginadas. Os pesquisadores analisaram qual foi a perda no consumo de concreto usinado em 38 obras. Em média, a perda foi de 9,59% do volume (em metros cúbicos). A obra com melhor desempenho perdeu só 2,44%, e a pior, 23,34%.
Quando se analisou o consumo de tijolos e blocos, 37 obras foram selecionadas. Neste caso, as perdas foram bem maiores, mas ficam longe do mito de que quase um terço do que entra na obra sai como entulho. Em média, a perda foi de 16,75% das unidades de tijolos e blocos. A obra com menor desperdício perdeu 2,93%. Houve um único caso dramático, segundo Souza, com perdas desse material que chegaram a 48,25% do total comprado.
O consumo de aço fez com que a média das perdas voltasse a cair. Das doze obras analisadas, a que teve o melhor desempenho registrou uma perda de 3,96%. A obra com pior performance acusou 16,46%. Em média, a perda das obras foi de 10,32% por tonelada.
Dos quatro materiais, a pesquisa ainda não fechou os números sobre argamassa para revestimentos. Souza acredita que serão apontadas perdas maiores com esse material do que com os outros três. Ao todo, o volume de perdas fica muito longe do mito que se criou, disse Souza.
Para chegar a esses resultados, a pesquisa analisou cada obra por cerca de sete meses, usando a mesma metodologia. O trabalho do ITQC (Instituto Brasileiro de Pesquisa e Qualidade da Construção) foi coordenado pela USP e financiado pela Finep. A abrangência só foi possível porque 16 universidades, em doze Estados, participaram do estudo, que começou a ser delineado em outubro de 1996. Até agora, três pesquisas estudaram o desperdício na construção, mas com universos restritos.
Essa pesquisa aprendeu com as anteriores, mas foi além dela seja em abrangência seja em conteúdo, disse Souza. Ao estudar o uso dos 19 materiais (cal, areia, tinta, fios, cimento e revestimentos cerâmicos são alguns deles), os pesquisadores analisaram as quatro etapas de execução de um serviço: recebimento, estocagem, processamento intermediário e processamento final. O transporte dos materiais é um passo intermediário entre cada uma dessas etapas e também foi alvo da pesquisa.
A metodologia focou a pesquisa no consumo e na perda, rejeitando o conceito de desperdício. Não há padrões internacionais para consumo, já que o número de variáveis em uma obra é grande. O conceito de perda implica em consumir desnecessariamente. Segundo Souza, falar em perda, para alguns desses materiais e serviços, seria um exagero, mas é possível se pensar em formas de melhorar o consumo, reduzindo-o. Não é viável alcançar a perda zero em alguns serviços, emendou, rejeitando o uso do conceito desperdício, em vez de perda.
Os resultados da pesquisa demonstram uma grande variação no comportamento das construtoras. Há empresas com perdas mínimas, enquanto outras jogam no lixo quase metade de alguns materiais. Num mercado cada vez mais competitivo, cometer erros que levem a empresa a esse patamar de perda pode ser o seu fim, disse Souza. No caso do concreto, a perda média de 9,59% vem, basicamente, de falhas da geometria da espessura. O grande vilão é a espessura da laje, afirmou.
No caso dos tijolos e blocos, onde a perda é muito alta mesmo na média (16,75%), a pesquisa detectou duas explicações: a qualidade do material é muito oscilante, com produtos muito bons e outros, ruins. O transporte e o manuseio desse material também é deficiente, levando a quebra do produto, o que fica agravado pela qualidade.
Se a qualidade do equipamento não assegura a redução da perda, a mão-de-obra é um item importante. A responsabilidade deve ser dividida entre o empregado qualificado e o que não é, disse Souza. O engenheiro, por exemplo, é responsável pela qualidade do material, enquanto o trabalhador manuseia o produto. A pesquisa, no entanto, não estudou as perdas vindas da mão-de-obra.


