Curitiba- Uma pesquisa para doutorado feita pelo médico veterinário e professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, Luiz Augusto Nero, entre 2003 e 2004, apontou a presença de resíduos de agrotóxico em 20,6% (13) das 63 amostras de leite cru recolhidas na região de Londrina. Para saber se a concentração está dentro dos limites máximos de resíduos ou se não há o chamado ''falso positivo'', amostras de leite pasteurizado foram recolhidas em todo o Estado para análise do Laboratório Central do Estado (Lacen), em Curitiba.
''Pode ser que a concentração esteja em níveis aceitáveis e não coloque as pessoas em risco'', alertou a professora do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e integrante do Programa Estadual do Controle de Resíduos de Medicamentos Veterinários em Alimentos de Origem Animal (PamVet), Daisy Pontes Netto. Ela também contribuiu para a pesquisa de Nero. ''O que nós fizemos foram análises de triagem e o Lacen fará a análise confirmatória'', disse.
Em seu trabalho, o professor da UFV analisou 210 amostras. Além de Londrina, na região de Viçosa ele observou contaminação em quatro (8,5%) das 47 amostras. Na região de Botucatu (SP), foram colhidas 50 amostras, das quais quatro (8%) tinham agrotóxico e, em Pelotas (RS), das 50 amostras, três (6%) apresentaram contaminação. Nas quatro cidades, 24 amostras (11,4%) continham resíduos. ''Estudos realizados em outras regiões do Brasil também revelaram a presença de antibióticos em leite, com frequência variando entre 0 e 70%'', afirmou Nero.
Segundo o professor, no caso de agrotóxico, não há fraude por parte do produtor, até porque o leite perderia em qualidade e renderia menos. Além disso, as cooperativas fazem testes antes de receber o produto. ''A principal fonte de resíduos de agrotóxico em leite é o manejo inadequado de drogas no tratamento de mastites'', disse. A mastite é uma inflamação das glândulas mamárias. ''O produtor não é orientado quanto ao tempo em que precisa descartar o leite para a eliminação completa do agrotóxico'', salientou. Para Nero, um dos problemas para a saúde humana é o fato de os resíduos de agrotóxico não serem eliminados no processo de beneficiamento.
O trabalho desenvolvido pelo PamVet no Paraná começou em 2003. Entre março de 2005 e outubro de 2006 foram recolhidas 254 amostras de leite pasteurizado no comércio de várias regiões do Estado. ''Já foram feitas as análises de triagem'', disse a coordenadora do grupo técnico e científico do programa, Eliana Scucato. Ela não quis revelar o resultado que apontaria em quantas amostras há resíduos de agrotóxicos. ''Vamos aguardar a confirmação'', ponderou.
Em uma nota distribuída à imprensa, a Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar) defendeu as 19 cooperativas que atuam com leite no Estado e que são responsáveis por 52% da produção comercializada, que é de 1,5 bilhão de litros por ano. ''Em conjunto com nossas 230 cooperativas filiadas, sempre defendemos um comportamento profissional sério no processamento industrial'', diz a nota.
''É preciso deixar claro que o fato de duas das 350 cooperativas de leite que atuam no Brasil terem cometido alguma irregularidade, não imputa o mesmo crime a todo o sistema.''

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