Perdas com seca já somam mais de R$ 632 milhões no RS
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terça-feira, 29 de janeiro de 2002
Elder Ogliari Agência Estado 
Tupanciretã - O açude quase seco, a lavoura de milho perdida e a de soja ameaçada tiraram o sono do agricultor Valentim Fioresi, que contava com uma colheita que lhe rendesse R$ 25 mil, suficiente para pagar a dívida de R$ 15 mil contraída com a compra de um trator. A chuva, se vier, poderá salvar parte da soja, mas não vai mais livrar Fioresi do déficit e de penosas renegociações. A situação é semelhante à de 150 mil famílias espalhadas por quase todas as regiões do Rio Grande do Sul. A quebra na safra de milho chega a 20,3%, 15,3% na de soja, 1,3% na de arroz e 25,2% na de feijão, com prejuízos que, somados, totalizam R$ 632 milhões, conforme cálculo da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater).
Em todo o Estado há uma redução substancial na entrega de leite, que chega a 40% nas zonas mais afetadas pela estiagem, segundo estimativa da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag). O otimismo dos produtores, que previam colher 16,7 milhões de toneladas, vem murchando desde o início de dezembro, quando ocorreu a última chuva em todo o território gaúcho.
A Secretaria da Agricultura admite a perda de 2,063 milhões de toneladas de grãos, uma redução de 12,4% em relação à expectativa inicial. Este porcentual está consolidado e não vai mudar, mesmo que a esperada chuva chegue nos próximos dias e permita o replantio do milho em algumas regiões e revigore as plantações de soja.
Individualizadas, as contas dos agricultores das regiões mais atingidas, como a central, o Médio Alto Uruguai e as Missões, onde está a maioria dos 167 municípios que decretaram estado de emergência, são bem piores que as estatísticas oficiais, que incluem aqueles que escaparam da estiagem.
Em São Luiz Gonzaga, perto da fronteira com a Argentina, o pequeno produtor Orli Krest perdeu quatro hectares de milho e sofre com a falta de água potável, que busca diariamente em um poço a quatro quilômetros de distância. No assentamento Santa Rosa, em Tupanciretã, Valentim Fioresi, que viu as 2 mil traíras que tinha no açude morrerem, tenta preservar as seis vacas leiteiras e seis bezerros alimentando-os com a palha do milho perdido e com o filete de água que restou no reservatório. A venda dos animais não está descartada se a quebra da soja for superior a 50%.


