Betânia Rodrigues
De Londrina
Especial para a Folha
A concentração de mercado é um mal que vem contaminando todos os setores da indústria nacional. Esta é uma das observações feitas pelo economista Miguel Arturo, 47, ao estudar o impacto das indústrias na definição do espaço urbano em Curitiba, tema da tese de doutorado que deve defender até o final do primeiro semestre de 2000.
‘‘Ela é consequência da falta de governabilidade e da falta de controle à entrada de capital estrangeiro’’, afirma Arturo, que desde 1982 é professor da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e há mais de quatro anos estuda o assunto. Para isso, ele conta com o apoio da Universidade Federal do Paraná e universidades francesas.
A fim de descobrir qual a real contribuição do setor para a geração de trabalho e renda, Arturo chega fatalmente à incompatibilidade entre a política externa do Brasil e aos projetos de desenvolvimento para a indústria nacional. Arturo acrescenta à sua pesquisa informações sobre a economia européia, enriquecidas a partir da convivência com os parisienses durante três meses, no ano passado.
Leia a seguir alguns trechos da entrevista que o economista concedeu à Folha:


Folha de Londrina - O que está provocando o aparecimento dos oligopólios no setor supermercadista no Brasil?
Arturo - Com a desvalorização da moeda, os produtos vendidos em supermercados tornaram-se muito baratos. Isso é consequência de uma política irresponsável de abertura econômica que está quebrando a indústria nacional. Se nada for feito em quatro ou cinco anos os pequenos mercados vão desaparecer ou, no máximo, se restringir às periferias onde o poder aquisitivo da população é muito menor.
Folha - Que fatores incentivam a instalação de empresas estrangeiras aqui?
Arturo - Elas vieram para cá porque os conflitos nos países asiáticos e no leste europeu frustraram os planos de ampliação das redes. Mas aqui elas encontraram uma situação confortável para se desenvolverem. Elas chegam com muito dinheiro para investir, não encontram leis para barrar seus projetos e conseguem repatriar os dólares com a maior facilidade. O poder de barganha das grandes redes é incomparavelmente maior em relação aos comerciantes menores. É uma batalha perversa na qual o brasileiro não tem condições de se defender.
Folha - O que os países desenvolvidos fazem para evitar essa concorrência injusta?
Arturo - Na França, por exemplo, não há hipermercados como os que se proliferam por aqui. Lá, o governo criou leis para proteger os pequenos e médios comerciantes. O vinho, o queijo, o tabaco são vendidos em lojinhas tradicionais, que se tornaram uma referência importante no modo de vida europeu. Além da política, a preservação histórica urbana nesses países é um empecilho para a construção e ampliação de grandes shoppings centers, supermercados e até estacionamentos.
Folha - Existe alguma solução imediata que possa controlar o assédio internacional sobre o Brasil?
Arturo - Não vai ser este governo que vai barrar o avanço do capital estrangeiro. Também não estou propondo que fechemos as portas aos investidores internacionais. O que eu acho é que o País deveria encontrar uma maneira de controlar o fluxo e só abrir a economia em setores de interesse. É isso que acontece em vários países europeus. A França, por exemplo, não admite concorrência de importados na comercialização de mercadorias de origem suína ou vinhos. A comunidade européia faz o mesmo com relação a produtos agrícolas e os Estados Unidos, de modo algum, permitem que seus consumidores bebam suco de laranja fabricado em outro país. O brasileiro, ao contrário do europeu, ainda favorece a entrada dos importados que podem ser vendidos sem a menor restrição. Dessa forma, produziremos cada vez menos e teremos menos dinheiro para consumir também. É uma bola de neve que vai envolvendo todos nós. Mas ainda há tempo de reverter esta situação. O voto é a única coisa em que eu acredito e o brasileiro tem condições de escolher.
Folha - Que outros setores acabam sendo afetados pela expansão das redes de supermercados?
Arturo - Numa reação em cadeia ela atinge em cheio também os pequenos produtores rurais. Sem dinheiro para investir em tecnologia eles perdem mercado para os grandes empresários agrícolas que são mantidos pelos grandes comerciantes ou hipermercados. Hoje em dia, é comum encontrar olericultores que estão se especializando na produção de alface em série através da irrigação. A dificuldade de acesso aos meios de produção mais eficazes acaba empurrando o agricultor familiar para a cidade.
Folha - A feira livre não poderia ser uma alternativa para eles?
Arturo - No Brasil, os melhores pontos de comercialização são controlados pelos atacadistas que compram em grande quantidade nos entrepostos. Os demais são obrigados a se refugiar nas regiões periféricas, em que a população em sua maioria é pobre. Isto acontece porque eles não conseguem da prefeitura o alvará de funcionamento. Em pouco tempo, os supermercados vão ‘engolir’ o pequeno e médio produtor de hortifrutigranjeiros.
Folha - Qual seria a melhor maneira de evitar a falência do pequeno produtor?
Arturo - A solução seria investir na pesquisa científica. Com o conhecimento de novas técnicas, as secretarias de agricultura poderiam oferecer treinamento direcionado ao homem do campo para que pudesse produzir com mais eficiência e formar cooperativas. Na Itália, por exemplo, o beneficiamento da carne suína é padronizado e dividido por pequenas indústrias. Enquanto isso, o Brasil gasta R$ 500 mil para criar uma vaga numa fábrica de automóveis e R$ 2 mil a R$ 3 mil para manter um trabalhador rural no campo.
Folha - Dentro desse quadro, quais as perspectivas para Londrina?
Arturo - A cidade vai ficar na mão das grandes redes. O limite é a periferia. O pequeno comerciante sentirá dificuldades para competir com as redes porque não terá o mesmo poder de barganha. Estas, por sua vez, já mostram que não estão interessadas somente em vender o alface e o arroz. Elas querem abocanhar também mercados como o de eletroeletrônicos, móveis, roupas, utilidades domésticas, lazer e tudo o mais que puderem.
Folha - O que você acha da iniciativa dos olericultores da região metropolitana que estão tentando negociar diretamente com as empresas de refeição coletiva, eliminando a intermediação dos supermercados?
Arturo - Será uma boa alternativa até que essas empresas não sejam engolidas pelos supermercados. Enquanto o governo enxergar no pequeno agricultor uma peça ineficiente na economia, alguém que produz pouco e caro, o homem do campo vai continuar sendo castigado pelo mercado.
Folha - Quais são os resultados mais visíveis desse processo?
Arturo - O que está acontecendo com o setor supermercadista é o mesmo que ocorre com as indústrias têxteis, de autopeças e informática. É um processo brutal de desnacionalização da economia brasileira. O setor financeiro já mudou de mãos, a Petrobrás está sendo vendida, o setor de comunicações também e o farmacêutico tem coragem de enfrentar o governo na polêmica da comercialização dos genéricos. No futuro, o Brasil vai encarar numa velocidade bem maior a mesma situação que o mundo vive hoje. Prova disso é o desemprego. Atualmente, ele é um fenômeno que se democratizou. A França, que é a segunda potência da comunidade econômica européia, tem um dos maiores índices de desemprego de sua história. No Brasil, a falta de políticas compensatórias provoca a cada dia o fechamento de mais postos de trabalho.
Folha - Podemos dizer que o País está se tornando uma terra de ninguém?
Arturo - Com certeza. Em nenhuma outra parte do mundo os supermercados cobram taxas dos fornecedores para expor os produtos como acontece aqui. Somos o único país que legitima o contrabando e o crescimento do subemprego no mercado informal. É uma estratégia de sobrevivência do brasileiro para enfrentar a miséria. Tudo isso é culpa dos nossos políticos. Eles acreditam que isso é a globalização que será benéfica para o País. O governo apostou que abrindo o mercado à concorrência externa transformaria os nossos produtores mais eficientes. O que ocorre é que eles estão quebrando porque não têm dinheiro e suporte técnico para competir com os americanos, japoneses e europeus.
Folha - Quem terá condições de sobreviver a esta crise?
Arturo - Poucas pessoas. A cada dia que passa o mundo funciona para menos pessoas. Com o tempo o Brasil vai descobrir que a economia pode se manter com a quarta parte do número de empregados existentes hoje, ou seja, 20 milhões de pessoas. As outras 100 milhões ficarão à margem da sociedade.
Folha - O que a sua pesquisa tem a ver com a desestruturação da economia brasileira?
Arturo- O meu trabalho tem o objetivo de mostrar que a forma urbana da cidade influencia a organização da economia. Ao contrário do que a maioria das pessoas imagina. A Curitiba de hoje, por exemplo, é em boa parte produto dos governos recentes, mas é fundamentalmente fruto da economia extrativista do início do século. A corrida industrial que para a maioria dos grandes centros urbanos começou na década de 30, em Curitiba só tomou vulto nas décadas de 50 e 60. Por isso, atualmente ela é uma das regiões metropolitanas que mais cresce em todo o Brasil. A diferença é que ela vem se beneficiando das industrias ‘limpas’, o que infelizmente não a livra de problemas ambientais e urbanos.Miguel Arturo, economista, diz que concentração industrial pode quebrar o pequeno negócio. Assunto é tema de sua tese de doutorado
À MARGEMMiguel Arturo, economista: ‘‘Enquanto o governo enxergar no pequeno agricultor uma peça ineficiente na economia, alguém que produz pouco e caro, o homem do campo vai continuar sendo castigado pelo mercado’’

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