Estamos vivendo num mundo de profundas transformações, tanto econômicas quanto políticas, afetando todos os setores da sociedade. Nunca tivemos tanto acesso à informação de maneira tão rápida. Contudo, temos confirmado através de nosso trabalho com organizações e comunidades, que as informações são raramente compartilhadas entre as pessoas. Não haveria outra perspectiva senão a proliferação de crises. As organizações humanas passam por crises de desenvolvimento. As pessoas dentro dessas organizações passam por crises psicológicas. A Terra está em esgotamento. As cidades em desestruturação. As comunidades humanas em desagregação. Quanto mais nos confrontamos com esses problemas, mais somos levados a perceber que eles não podem ser entendidos isoladamente. São problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes.

Os atuais problemas da sociedade não são resultado do acaso. Tampouco são resultado do mundo globalizado. São resultado de pressupostos profundamente arraigados na mente humana que, inquestionados e ocultos, deixam-se transparecer na construção cotidiana das realidades. A escola é um exemplo clássico. Desde nossos primeiros dias de aula no jardim de infância, nosso cérebro começa a ser profundamente formatado pelo modelo linear. Ou seja, existe o predomínio de um determinado pensamento, ocorre a exclusão de quaisquer outros, sendo isso aceito como ''lógico'' e perfeitamente ''natural''. O conhecimento foi fragmentado, através da especialização das áreas, limitando a visão de mundo. Essa visão compartimentalizada precisa ser reavaliada para que a sociedade possa desenvolver uma nova percepção de cidadania e de sustentabilidade.

Estamos muito motivados pelo trabalho escolar, não apenas por ser a escola a organização que semeia o mundo do futuro, mas também pelo fato do movimento do pensamento sistêmico ser coerente e retroalimentado por estudos contemporâneos de diversos autores, como os construtivistas Dewey, Piaget, Vigostski, Freire e Kolb; cientistas cognitivos como Maturana e Varela; pesquisadores da ciência da ação e pesquisa-ação, como Argyris, Schön e Thiollent; e cientistas da vida, da consciência e da sociedade, sintetizados por Capra e que são foco de trabalho do Center for Ecoliteracy em Berkeley. Acreditamos estar diante de um arcabouço que pode efetivamente otimizar o trabalho e fortalecer o papel social das escolas.

Este tema preocupa e interessa muito ao IBQP. Nosso trabalho com organizações humanas nos ajuda nesta jornada. Temos usado o poder da reflexão coletiva, da conversação, da aspiração e, principalmente, do pensamento sistêmico para trazer à tona estes pressupostos e questioná-los, dentro de uma estrutura mais coerente com uma vida mais integrada, criativa e sustentável. Dessa maneira, desejamos construir uma sociedade que nos permita satisfazer as necessidades das gerações futuras e que, ao mesmo tempo, seja compatível com as exigências da dignidade humana e da sustentabilidade planetária.


- Helena Rey de Assis, consultora do Núcleo de Desenvolvimento Sustentável do IBQP, e possui mestrado em Gerenciamento Ambiental pela Universidade de Sunderland, Inglaterra.

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