PEDRA NO SAPATO - Iniciativa privada teme apagão logístico
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domingo, 31 de janeiro de 2010
Fábio Galão<BR> Equipe da Folha 
Curitiba - Após sofrer com a crise em 2009, a economia do Paraná vive a expectativa da recuperação. A produção industrial do Estado acumulou, entre julho e novembro do ano passado, um aumento de 7,3%, depois de um primeiro semestre de baixa, segundo números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na agricultura, após sofrer com as estiagens nos últimos anos, o produtor espera uma grande safra em 2010.
Diante desse otimismo, surge uma dúvida. O Paraná conta com a infraestrutura adequada para transportar essa produção? A FOLHA entrevistou lideranças de entidades representativas da iniciativa privada, nos setores industrial, agrícola e de transportes, e todas adotaram um discurso parecido: por enquanto, a estrutura paranaense em rodovias, ferrovias, aeroportos e portos é apenas levemente adequada, e a perspectiva de um crescimento maior para os próximos anos pode gerar problemas caso não sejam feitos investimentos na área.
O Paraná, dentro do Brasil, ainda se pode dizer que é privilegiado. Mas a infraestrutura ainda é pouca. Há uma questão séria no porto (de Paranaguá). Quando há uma grande produção agrícola, basta ver as filas que se formam na estrada, aponta Luiz Anselmo Trombini, presidente da Federação das Empresas de Transportes de Cargas do Estado do Paraná (Fetranspar). Os nossos governos estão deixando de lado a infraestrutura. Para a economia crescer os 5% que estão sendo projetados, vamos ter problemas, complementa.
No que diz respeito à infraestrutura, a crise de 2009 foi benéfica, entre aspas, é claro. Se o Brasil continuasse no ritmo de produção em que estava antes, já estaríamos tendo problemas no escoamento dessa produção, afirma Trombini.
Ele aponta que o Brasil tem uma infraestrutura de transportes inferior à de outros países emergentes, o que interfere na competitividade dos produtos brasileiros. O produto tem que ser transportado de forma mais rápida e mais barata. Se você consegue isso, o seu produto se torna mais competitivo. Se não consegue, é o contrário. Os produtos brasileiros perdem competitividade no mercado, explica.
Precisávamos ter a ferrovia integrando o Estado de Mato Grosso ao Porto de Paranaguá, ter uma hidrovia na região de Foz do Iguaçu ligada à Argentina e a outros países, utilizar mais dutos. Não se fala em dutos no Brasil, que é uma forma de transporte rápida e eficiente. Em geral, faltam investimentos. Corremos o risco de um apagão logístico, acrescenta Trombini. Não tiro o mérito do poder público de investir em políticas sociais, mas para o País crescer de verdade ele precisa investir em infraestrutura.
Nélson Costa, superintendente-adjunto do Sindicato e Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), concorda que os paranaenses não podem se conformar com a posição de ter uma estrutura superior à de outros Estados. O Paraná tem condições de escoar a produção agrícola deste ano, mas não com a melhor relação custo-benefício possível, argumenta.
Já há vários anos as entidades representativas dos setores produtivos paranaenses têm insistentemente colocado a necessidade de dotação orçamentária para resolver os gargalos. Pedimos a ampliação da pista do Aeroporto Afonso Pena (em São José dos Pinhais), a recuperação da ligação ferroviária entre Guarapuava e Ponta Grossa, as obras da Estrada Boiadeira e da Transbrasiliana. Mantemos vários contatos com o governo federal, mas a resposta não tem sido adequada, lamenta Costa.
O superintendente da Ocepar aponta que o principal prejudicado pelos problemas resultantes da infraestrutura claudicante é quem gera riquezas. A competitividade do produto paranaense é do porto para fora. A perda de renda resultante do custo dessa logística, que está longe de ser a melhor, fica para o produtor, explica.
Hélio Bampi, vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), cita que, em alguns casos, as empresas paranaenses têm que buscar a infraestrutura de que precisam em outros locais.
Do ponto de vista da indústria, temos alguns gargalos, que estão em discussão há anos. Uma questão importante é o Aeroporto Afonso Pena, que tem a necessidade de uma pista adicional. Hoje, muito da importação e da exportação tem que ser feito por Viracopos (SP). O Paraná e o Brasil precisam investir em infraestrutura para fazer frente ao crescimento sustentável que está sendo esperado. Se isso não for feito, teremos problemas dentro de três a cinco anos, alerta Bampi.
O empresário lembra que a destinação de recursos federais para esses investimentos é também uma questão política. Precisamos que os investimentos em infraestrutura entrem na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e, através da bancada paranaense no Congresso, sejam feitas as dotações orçamentárias. O que percebemos é que o Paraná sempre recebe menos do que seria condizente com a sua importância, diz ele.


