Contam que, durante o grande incêndio na biblioteca de Alexandria, foi salvo um único livro. Dentro desse livro havia uma tira fina de pergaminho com o segredo da ‘‘pedra de toque’’. Era uma pedra pequena e singular, perdidas entre muitas outras nas praias do Mar Negro. Essa pedra tinha o estranho poder de transformar qualquer metal comum em ouro puro. Todas as pedras da praia eram frias e a maneira de reconhecê-la dentre as demais era o calor que exalava ao toque.
De posse desse segredo, um homem vendeu suas poucas posses e acampou à beira da praia para procurar a ‘‘pedra de toque’’. Cuidando para não pegar uma mesma pedra várias vezes, planejou ir lançando ao mar todas as pedras frias ao toque, até encontrar a pedra que buscava.
Assim se passou uma semana, um mês, um ano, dois anos, três anos de trabalho ininterrupto. Cada pedra que pegava era fria e então lançava ao mar. Certa manhã, envolvido na tarefa de procurar a pedra mágica, ele pegou um pedra quente ... e, sem pensar, lançou-a ao mar. Estava tão acostumado a lançar todas as pedras ao mar que, por força do hábito, ao encontrar a pedra que tanto queria, numa reação mecânica, também lançou-a fora. Num único instante, por um ato habitual e impensado, perdeu anos e anos de esforço e esperança.
Que mensagem esse episódio nos traz? Qual seria a ‘‘pedra de toque’’ que, por força do hábito, lançamos fora? O que insistentemente buscamos? Que poder mágico poderia transformar nossas vidas?
O poder que tanto buscamos, e isto é o mais surpreendente, está ao alcance de cada um de nós, a todo momento e durante todo o processo de nossa vida. Nos foi dado ao nascer, sem privilégio de raça, nacionalidade, sexo, cultura ou posses materiais. A ‘‘pedra de toque’’, o poder mágico que pode transformar nossas vidas, tornando-nos pessoas mais felizes, produtivas realizadas é o poder de decisão.
Podemos escolher entre levantar ou ficar deitado, tomar água ou refrigerante, ir para a esquerda ou para a direita, enfim, podemos decidir entre fazer uma coisa ou outra, pensar uma coisa ou pensar outra. Mas, na rotina do cotidiano, geralmente reagimos por hábitos e impulsos ‘‘lançados fora’’ este poder, deixando de utilizá-los ou utilizando mal, sem perceber o tesouro que temos ao alcance das nossas mãos.
Frente a cada situação da vida, há sempre duas atitudes possíveis: reação ou proação. As reações são respostas imediatas, mecânicas, condicionadas, repetitivas, mantidas pela força do hábito. Caracterizam-se como resistências a mudanças, já que são atitudes e comportamentos previsíveis, pré-estabelecidos. Ao reagir sempre da mesma forma às circunstâncias, dificilmente o indivíduo terá resultados diferentes dos que já vem rotineiramente obtendo na sua vida pessoal, familiar e profissional.
A proação, ao contrário, permite o rompimento de hábitos e a determinação de novos rumos para nossas ações. Apenas a proação nos possibilita utilizar com equilíbrio e sabedoria o poder de decisão. Ao assumir uma atitude proativa, a pessoa age com mais flexibilidade, mais criatividade. Para desenvolver nossa capacidade de proação podemos utilizar, nas circunstâncias de vida, técnicas como a inibição e a pausa criativa.
A inibição é uma suspensão da reação psicofísica ao estímulo, uma pausa entre o estímulo e a resposta, a qual permitirá ao corpo se reorganizar no tempo e no espaço diante da situação. Inibir a absorção pura e simples de ocorrências impactantes, evita a formação de couraças e zonas de tensão corporal. Uma forma de estabelecer a atitude de inibição é respirar profundamente e conectar-se ao momento presente, ao fluxo da vida, liberando o à sua condição natural, sem qualquer direcionamento, intenção ou preocupação. Este breve ‘‘recuo’’ possibilitará uma percepção mais acurada de si mesmo, frente à situação como um todo, pelo sistema integrado corpo-mente-espírito, desobstruíndo as vias da sensibilidade, da percepção e da intuição.
A pausa criativa, por sua vez, consiste numa breve interrupção da ação, onde o indivíduo se pergunta: existem outras maneiras de resolver esta situação? Posso fazer melhor? Que resultados esta ou aquela ação poderá trazer? As ações passam a ser mais conscientes, deliberadas e criativas. Ao contrário da reação, a proação permitirá resultados diferentes e mais satisfatórios, por possibilitar decisões mais compatíveis aos contextos vivenciados.
Todos vivemos momentos de reação e todos temos capacidade de proação, o que não nos permite portanto estigmatizar um individuo como reativo ou proativo. Mas uma ou outras dessas duas formas de agir é dominante nas nossas relações cotidianas, caracterizando nossas ações e consequentemente determinados resultados.
E qual a importância dessas duas atitudes no contexto empresarial?
A resposta a esta questão está atrelada à mudança de paradigmas, que vem no bojo do processo de globalização, nesta virada de milênio. As atitudes reativas não apenas são geralmente aceitas sem maiores questionamentos, como também justificadas pela visão hegemônica de mundo. Mas, com o advento da tecnologia e a internacionalização da economia, as atitudes, ações e expectativas das pessoas estão se tornando o diferencial competitivo das empresas. O momento presente exige flexibilidade, adaptação e criatividade penrante a intensidade e velocidade das mudanças. Neste sentido, reação ou proação pode fazer toda a diferença.
O mercado consumidor mudou e está mudando cada vez mais. A natureza dessas mudanças exige das empresas de serviço um atendimento diferenciado e personalizado ao cliente. Para atender ao novo contexto, as organizações necessitam de colaboradores versáteis, perceptivos, criativos, auto-motivados e com habilidades para trabalho em equipe, ou seja, pessoas com atitudes proativas.
Antes de passar adiante esta reflexão, é importante esclarecer que o objetivo desta matéria não é colocar em pauta questões do tipo políticas salariais, condições de trabalho, diferenças econômicas, sócio-culturais e outras. Esses temas são importantes, mas não constituem o foco do presente texto. Vamos ater-nos somente a questão das atitudes proativas e reativas e seus desdobramentos no ambiente da empresa.
Na atitude reativa, o indivíduo costuma apegar-se a circunstâncias e argumentos pessoais e funcionais para justificar suas inabilidades, falta de vontade e postura individualista. Por exemplo, argumentos do tipo ‘‘isto não é minha função’’, para não participar quando a cooperação de faz necessária.
As funções hoje, numa empresa, não têm limites rígidos: elas constituem o mínimo e não o máximo a ser feito. Para que o resultado final em termos de atendimento ao cliente externo seja o melhor possível - e isto é desejável para as empresas que pretendem sobreviver e competir no mercado - é necessário que as funções estejam interconectadas, o que pressupõe uma equipe incondicionalmente integrada e cooperativa. Consiste em passar do foco ‘‘apenas minhas necessidades’’ para ‘‘as necessidades de todos’’, incluindo o cliente interno, externo e fornecedores.
Hoje, não é mais possível às pessoas viverem indefinidamente seus dramas pessoais no trabalho, relacionarem-se bem apenas com alguns e serem descorteses com os demais, vivendo ao sabor das preferências. A realidade do mercado não comporta mais esse tipo de atitude. É necessário que cada um se perceba como um elemento importante da equipe e atue com esta visão e responsabilidade. É fundamental nos darmos conta que ser cortês e viver cooperativamente não é mais uma opção, é uma necessidade, independentemente do cargo, de quem se é ou do que faz.
Se diante de uma ‘‘má vontade’’ reagimos com outra ‘‘má vontade’’ estamos, como marionetes, permitindo a outra pessoas o poder de decidir como devemos nos comportar e como devemos nos sentir. A maneira mais segura de desenvolver a maturidade emocional é trabalhar consigo mesmo nas situações do cotidiano, no momento em que elas acontecem. Quando não o fazemos, desperdiçamos uma preciosa oportunidade de crescimento pessoal.
Pode parecer que olhar as organizações com foco nas atitudes individuais seja uma visão fria, utilitarista, uma ótica que favorece apenas a empresa e penaliza o trabalhador. Dentre outros fatores, há três aspectos a se considerar neste sentido. Primeiro: se a performance da empresa não corresponder às exigências do mercado, ela não sobreviverá e todos, mais cedo ou mais tarde, perderão seus empregos. Segundo: o que foi dito se aplica a todos, indistintamente, sem importar cargo ou função, se somos empresários, funcionários ou profissionais liberais. Terceiro: assumir que podemos viver melhor, com maior qualidade de vida sendo proativos em vez de apenas reativos, é um ato de confiança e respeito à nossa potencialidade como seres humanos.
Não somos ‘‘vítimas’’, ‘‘coitadinhos’’ ou pessoas incapacitadas de construir uma vida melhor para nós mesmos. Existe uma responsabilidade a ser assumida pelas nossas decisões e ações. Somos pessoas de valor e conseguimos mudar muitas coisas. Podemos transformar nossa relação com o mundo, de forma a nos tornamos indivíduos mais plenos, felizes, criativos e produtivos. Neste sentido, afortunadamente, a premência induzida pelas transformações do mercado e seus reflexos no mundo do trabalho, trouxe para o cotidiano de cada um de nós oportunidades reais de desenvolvimento pessoal.
Estamos vivendo mundialmente processos de mudanças profundas e significativas, em todos os níveis e aspectos. Historicamente, fala-se em crise de paradigmas. Mas a palavra crise tem dois significados: perigo e oportunidade. Em momentos de crise, muitas pessoas dizem que é difícil mudar, que é difícil manter uma atitude proativa. Entretanto, são justamente estes os momentos mais oportunos. Por outro lado, tudo se torna difícil se continuamos apegados à nossa zona de conforto ou enquanto não decidimos mudar.
Queremos resultados melhores para nossas vidas, mas não queremos mudar; isto não é possível. Falamos em problemas e dificuldades para justificar noss inoperância, sem perceber que situações de crise são momentos de oportunidades. Quando decidimos realmente mudar para construir nossa felicidades, as dificuldades transformam-se em desafios e os problemas em oportunidades de crescimento pessoal.
Para tanto, é preciso acreditar em nós mesmos, nos nossos valores, nas nossas capacidades e possibilidades. É fundamental querer mudar, desejar resultados diferentes, acreditar numa vida melhor, acreditar nas outras pessoas. É necessário decidir mudar e, num ato de vontade, tomar ações compatíveis e persistir, ajustando a rota e revendo planos e metas, porque a felicidade não é um fim, mas algo que se constrói no percurso.
Com isso, quem ganha é o ser humano.
- MARIA IVANIL C. MARTINS é educadora, palestrante e consultora em Londrina.

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