Não há mais espaço no Paraná para a pecuária do século passado, com o boi solto em grandes latifúndios e sem grandes preocupações com nutrição e genética, por exemplo. Manter um animal por hectare em um Estado onde a cultura de grãos toma boa parte da zona rural é como se o produtor andasse pela rua com o bolso furado. Por isso, criadores puderam conhecer na quarta-feira, 5, na ExpoLondrina, o conceito de pecuária moderna, que envolve tanto investimento quanto a lavoura, com uma preocupação que vai da genética às relações com o mercado. O evento foi promovido pela Emater e teve apoio da FOLHA.

Mais de 100 pessoas, entre pecuaristas, técnicos, pesquisadores e outros envolvidos com o setor, acompanharam as palestras no Recinto Milton Alcover, com o mote "Casos de sucesso na pecuária de corte". O secretário da Agricultura e Abastecimento do Paraná, Norberto Ortigara, abriu o evento e falou sobre a importância do manejo de pastagens e da sanidade bovina, para manter ao menos quatro cabeças por hectare e chegar ao abate em menos de 30 meses. "É uma cadeia que precisa ser resolvida de cabo a rabo", disse. "Temos força em genética e o que nos falta é a boia, a comida para os animais. Precisamos investir como faz o cara da lavoura", completou.

Ortigara citou alguns fundamentos do Programa Pecuária Moderna, lançado em 2015 pelo governo estadual, que visa fortalecer a atividade no Estado por meio de melhorias de índices zootécnicos, da qualidades das pastagens, além de maior remuneração na bovinocultura de corte. Ele citou a necessidade de se reduzir a taxa de mortalidade, a idade das matrizes para o primeiro parto e para o intervalo entre as crias, além de baixar a idade média do boi para o abate. "Claro que tem de ser jogo combinado com a indústria, para que seja ganha-ganha. Um boi mais novo, com boa cobertura, boa capa de gordura, bem formado, vale mais do que o boi sanfona."

O diretor técnico do Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), Paulo Hidalgo, disse que há muita pastagem degradada no Estado, o que eleva o número de oportunidades. Ele lembrou do conceito Carne Carbono Zero, pelo qual a produção de bovino de corte com a introdução obrigatória de árvores em sistemas de integração do tipo silvipastoril (pecuária-floresta, ou IPF) ou agrossilvipastoril (lavoura-pecuária-floresta, ou ILPF) neutraliza o metano liberado pelos animais e atesta uma prática mais sustentável. "A rentabilidade pode ser muito superior com o uso de florestas", disse.

Manejo deve garantir quatro cabeças por hectare, com abate em menos de 30 meses
Manejo deve garantir quatro cabeças por hectare, com abate em menos de 30 meses | Foto: Marcos Zanutto



MANEJO E GENÉTICA
Engenheiro agrônomo da Cocamar Cooperativa Agroindustrial, Erick Zobiole foi o primeiro a fazer uma apresentação sobre a reforma de pastagens, na qual destacou o exemplo da Fazenda Santa Felicidade, em Maria Helena, Região Metropolitana de Umuarama. Em 312 hectares, a propriedade com solo arenoso sobrevive pela produção pecuária de corte, de leite, de soja, de milho e eucalipto. "Alguns fatores impulsionaram a ILPF dentro da fazenda, como o aprimoramento de técnicas de plantio direto na palha, a aplicação de pesquisas, o uso de capins-braquiária entre duas safras de soja, a ação contínua da Cocamar em fornecimento de insumos, recebimento de grãos e assistência técnica, além do surgimento de tecnologias", disse.

Zobiole conta que, apesar do solo não tão apropriado para o plantio de soja, a fazenda consegue produtividade média de 57 sacas de soja por hectare, enquanto a média na região é de 41. "Somamos os resultados das atividades de soja, pecuária e pecuária de leite e levamos maior sustentabilidade àquela fazenda, reduzindo e muito o risco de qualquer frustração em qualquer uma das atividades."

Na sequência, o sócio proprietário da empresa Firmasa Tecnologia para Pecuária e médico veterinário Luciano Penteado apresentou a importância da gestão de índices produtivos e reprodutivos na pecuária. Apesar de citar os resultados tidos como aceitáveis para se ter uma boa lucratividade no País, ele lembrou que é preciso ir além. Por exemplo, disse que a fertilidade bovina deve ser de mais de 85%, mortalidade de bezerros de menos 2,3%, mortalidade de adultos abaixo de 0,8% e produção de peso vivo de 350 kg por hectare.
Em termos de número de partos na vida útil da matriz, ele diz que o ideal são crias a cada 12 meses em dez anos. "Mil vacas produzindo a cada 12 meses geram R$ 12 milhões na vida útil. Se for em um intervalo de 15 meses, que todos acham que é bom, estou perdendo R$ 3,6 milhões, ou 21 mil arrobas nessa propriedade."

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