Patrimônio Histórico ou um estádio condenado?
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Emerson Dias<br> Especial para Folha 
Avaliado pela estrutura, praticamente condenada por vistorias e laudos de engenheiros e técnicos, o Estádio Vitorino Gonçalves Dias custa caro. Mas se unir a estimativa de até R$ 5 milhões ao valor histórico apontado por muitos moradores e empresários, os 22 mil metros quadrados do VGD de Londrina seriam vendidos por uma bagatela. Até mesmo profissionais do setor imobiliário criticam a proposta da Fundação de Esportes de Londrina (FEL) e afirmam que o negócio não seria viável nem para a administração pública e nem para o setor privado.
A possibilidade de venda do VGD foi apresentada em um projeto no fim do ano passado, depois que a Fundação recebeu um laudo técnico de dois engenheiros. Nas 125 páginas do dossiê estão fotos, cálculos, comparativos de plantas e relatos de irregularidades na estrutura (infiltrações, rachaduras, instalações precárias, etc.) que reforçam o que a vistoria feita por representantes do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea), do Corpo de Bombeiros e da Federação Paranaense de Futebol (FPF) apontou quando riscaram o VGD da lista de estádios liberados para campeonatos estaduais e nacionais.
Para o presidente da FEL, Paulo Roberto Oliveira, repassar para a iniciativa privada um estádio já condenado por engenheiros e pelo Ministério Público seria ''a melhor alternativa para se livrar do problema e viabilizar a reforma completa do Estádio do Café'', considerado o principal centro esportivo da cidade (veja box).
Empresários do setor imobiliário discordam. Para o dono de imobiliária, Abílio Medeiros, a oferta do VGD fica numa encruzilhada: se for negociado a preço de mercado (entre R$ 5 milhões e R$ 7 milhões), não compensa. Se for abaixo disso (valor venal do imóvel foi calculado entre R$ 2,7 milhões e R$ 3 milhões), é pouco dinheiro para o que ele considera um patrimônio histórico. ''Temos casas em condomínios fechados de Londrina que valem R$ 4 ou R$ 5 milhões. Como londrinense, sou contra qualquer negociação porque estão vendendo a História da cidade. As gerações futuras vão cobrar isso da gente'', disse Medeiros.
O gerente de vendas da Raul Fulgêncio Negócios Imobiliários, Humberto Lanziotti, também defende a continuidade do estádio porque a região onde está é inviável para grandes empreendimentos. ''Um Shopping não cabe ali e se fosse pensar em condomínios, teríamos que direcionar para o público C e D da região. É melhor preservar que demolir'', avaliou. Já o gerente de vendas da Imobiliária Santamérica, Luiz Moreira, foi direto. ''Avaliando a região onde o VGD está, eu acho caríssimo o valor que está circulando na mídia. Vai aparecer comprador se um dia colocarem à venda, mas não acho que o investimento tenha liquidez. É muito concreto pra por no chão'', afirmou Moreira.
Em uma rápida enquete feita no centro da cidade, a maioria também concorda com a idéia de preservar o estádio. Porém, os moradores vizinhos ao local têm outros argumentos. ''O estádio já deu o que tinha que dar. Tem que demolir e melhorar a região. Isso aí é um elefante azul que vai virar mocó'', condenou a professora Sandra Raquel Kochmanscky, que há 35 anos mora à meia quadra do VGD.
Para o professor da UEL e historiador, José Miguel Arias Neto, definir a destinação do local seria um fator primordial para dar andamento ao projeto. ''O VGD vai se transformar num centro cultural com local para espetáculos ao ar livre, shows musicais e teatrais como o Teatro do Zerão? Vai ser um centro de lazer onde se desenvolvam atividades como se costuma fazer em várias praças da cidade? É preciso dizer para que vai servir, pois só será preservado se for usado, se tiver uma finalidade'', analisou Arias Neto. A solução para o impasse, segundo o historiador, seria um debate envolvendo toda a comunidade. ''Eu penso que esta não é uma questão para ser discutida somente do ponto de vista econômico, mas também social e afetivo. Talvez a melhor forma fosse a realização de uma audiência pública para debater o tema''.
O projeto polêmico deve ser apreciado por técnicos da prefeitura e também pelos vereadores. O próprio presidente da FEL informou que vai primeiro aguardar os projetos previstos para o Estádio do Café para depois encaminhar a proposta do VGD à Câmara.


