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Londrina

Economia 5m de leitura Atualizado em 08/01/2022, 09:37

Parklets caem no esquecimento após 6 anos de regulamentação

Única estrutura ativa na cidade fica na Vila Casoni. Custo alto, restrições legais e desinteresse dos comerciantes explicariam baixa adesão

PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de janeiro de 2022

Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

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Os parklets não arrebataram os londrinenses. Depois de seis anos de regulamentação, quando o então prefeito Alexandre Kireeff dizia que “as mini praças são equipamentos urbanos desenvolvidos, implantados e mantidos pela iniciativa privada, mas que podem ser usufruídos por todos” e que “são otimizados através de modelagem urbanística, contemporânea e bem-sucedida, já existente em algumas cidades do mundo”, o programa ainda não “decolou” e, a curto prazo, parece pouco provável que as pequenas estruturas de descanso e contemplação se imponham na paisagem da cidade.

Imagem ilustrativa da imagem Parklets caem no esquecimento após 6 anos de regulamentação
|  Foto: Gustavo Carneiro
 

O primeiro exemplar de mini praça surgiu mais de três anos após a regulamentação. Em 2019, uma pizzaria da Vila Casoni investiu cerca de R$ 40 mil na construção de um deck sobre duas vagas de estacionamento, estrutura que chama atenção de motoristas e pedestres que trafegam na Avenida Jorge Casoni. “No início tivemos problemas, inclusive com denúncia de moradores que acreditavam que estávamos invadindo o espaço público”, explica a proprietária Bruna Oliveira. “Mas esclarecemos tudo aos poucos e o saldo da experiência é muito positivo. Os vizinhos se acostumaram, os clientes adoraram e isso foi importante para o nosso negócio”.

A empresária lembra que se à noite - a pizzaria funciona a partir das 18 horas - os clientes usufruem do local, especialmente no fim de semana quando o local serve para aguardar a liberação das mesas, durante o dia outros trabalhadores aproveitam o horário do almoço para descansar. Segundo ela, as crianças também gostam de utilizar o deck. 

“Tivemos problemas com vandalismo: arrancavam as flores e a placa informativa de adesão ao programa. Mas hoje recolhemos as floreiras e a placa e evitamos novas perdas. Já a manutenção é feita a cada seis meses, basicamente a troca de madeira”, explica.

A Folha apurou que desde 2015 poucos empresários buscaram a Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização com projeto pronto e dentro das normas do Manual Técnico oferecido no site do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina. 

No ano passado, um comerciante da área central teve o projeto aprovado, mas desistiu e outro interessado pediu autorização sem, no entanto, apresentar o projeto. Em 2020, durante a Mostra de Arquitetura e Interiores (MAI), numa mansão no Jardim Bela Suiça, a instalação de um parklet temporário foi autorizada e fez sucesso no período do evento. No entanto, com o fim da mostra, a estrutura foi desmontada, com rumores de que seria convertido em uma instalação permanente em outro endereço, o que não ocorreu até hoje. 

A baixa procura espontânea nunca motivou a gestão municipal a fazer um esforço de divulgação e, de modo geral, os altos custos de instalação são apontados como principal motivo do desinteresse, de acordo com algumas fontes dos órgãos técnicos. Outro entrave seria a exigência do aval dos vizinhos para converterem as vagas de estacionamento em área de uso de pedestres. 

Em São Paulo já são 163 unidades

A primeira experiência de parklets no Brasil foi em 2013 na cidade de São Paulo (no mundo, o conceito surgiu em San Francisco, na costa oeste dos EUA). Após uma experiência-piloto, a instalação dos equipamentos foi regulamentada em abril de 2014. Em seguida, para incentivar a adesão dos comerciantes, a prefeitura da capital paulista construiu 32 estruturas, espalhadas por todas as regiões. 

Hoje, a cidade já soma 163 mini praças, lugares que se tornaram opções para descanso de pedestres e ciclistas, manifestações artísticas e atividade física. Em seguida, outras capitais e grandes cidades do interior também decidiram aprovar legislações específicas para este tipo de intervenção. Em comum, a obrigatoriedade do investidor deixar claramente sinalizado que o local é de uso público, sem nenhum privilégio para clientes do estabelecimento.

“A função de um parklet é ser um oásis de tranquilidade na agitação urbana”, explica o diretor de Projetos do Ippul, Robson Naoto Shimizu. “E talvez Londrina seja bem servida de praças nas regiões movimentadas e também de fundos de vales preservados em bairros centrais, que já cumprem este papel. Ao mesmo tempo, há falta de vagas de estacionamento na maioria das áreas comerciais”, especula o arquiteto e urbanista. 

Outras restrições também podem ter esvaziado o programa, como a exigência de instalação em áreas planas e de baixa velocidade de tráfego. “Podemos retomar a discussão com novas ideias, como incentivos fiscais ou concursos da melhor mini praça, por exemplo. E também talvez o poder público tenha que incluir o programa dentro de um contexto e propósito mais profundo, que é fazer de Londrina uma cidade amigável para o pedestre e para o ciclista, os grandes beneficiados por iniciativas desta natureza”, pondera Shimizu.

A professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da UEL, Eloísa Ribeiro Rodrigues, acredita que a ideia dos parklets foi amadurecendo e que no início da experiência em São Paulo havia críticas em relação ao risco de privatização do espaço público, quando os clientes e os transeuntes pareciam entender que aquela área era de uso particular. “O grande desafio é atrair investimentos privados para o espaço público. Primeiro que muitos não entendem que isso vai também beneficiá-lo e, segundo, porque há uma mentalidade que apenas o poder público deve cuidar do espaço público. Na minha opinião, a baixa adesão está relacionada a isso”.

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