Parcerias suspeitas afastam comprador da Copel
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domingo, 18 de novembro de 2001
De Curitiba e Londrina 
Parcerias feitas pela Companhia Paranaense de Energia (Copel) nos últimos três anos com gru pos privados ti raram do Estado boa parte do 'filé mignon' do mercado energético explorado há quase 50 anos pela companhia. Com a anuência do atual presidente da empresa e secretário da Fazenda, Ingo Hubert, a direção da estatal empreendeu uma autêntica ''operação desmonte'' dos serviços da companhia praticamente às vésperas da privatização, fechando contratos que terceirizaram a exploração de negócios altamente lucrativos, até então administrados com exclusividade pela Copel.
Essas parcerias, que começam a ser bombardeadas na Justiça por entidades contrárias à privatização da empresa, estão rendendo dor de cabeça ao governo do Estado agora, na hora de vender a empresa. Alguns desses grupos, brindados com fatias lucrativas do setor energético do Paraná sem licitação estão na mira da Justiça e do Ministério Público. Têm à frente ex-funcionários da estatal e empresários ligados ao poder estadual desde janeiro de 1995, quando Jaime Lerner (PFL) assumiu o Palácio Iguaçu, eleito governador pela primeira vez. Um desses contratos o que se refere à empresa Tradener (leia nesta página) já está suspenso por ordem judicial, contestado por desrespeitar a Lei 8.666, que rege as licitações.
Encontrar esses ''detalhes contratuais'' no data room da Copel, a que tiveram acesso apenas os onze grupos pré-qualificados ao leilão de 31 de outubro e que pagaram R$ 40 mil apenas para vasculhar os números da empresa teria assustado os interessados à compra mais até do que a conjuntura internacional. É o que pensa o ex-presidente da Copel, João Carlos Cascaes, que comandou a companhia nos anos de 93 e 94. Ele acredita que os grupos inicialmente dispostos a participar do leilão descobriram o que agora vem à tona: a Copel transferiu fatias generosas do mercado até então exclusivo da estatal a alguns grupos do setor privado, tornando a companhia menos atrativa sob o ponto de vista financeiro.
Não é difícil entender. Se o proprietário de um imóvel pretende negociar o bem, fixa um preço de venda compatível com o mercado mas retira benfeitorias da propriedade, é natural que o comprador se desinteresse pelo negócio. Ou, na melhor das hipóteses, exija um abatimento no preço. É o que acontece com a Copel. O comprador imaginou a compra de uma empresa modelo, praticamente unanimidade em eficiência no setor energético brasileiro e com grande potencial financeiro, mas ao examinar os números reais descobriu que arremataria uma companhia desvalorizada, com boa parte de sua rentável carteira de serviços transferida a terceiros.
Pior que isso. As candidatas à compra tiveram pouco tempo para calcular em que tipo de negócio estariam colocando o seu dinheiro, observa Cascaes. ''Os grandes grupos econômicos ficam de um a dois anos estudando minuciosamente antes de investir grandes quantias. Imagine como analisariam quase 30 contratos em um prazo tão curto quanto foi a consulta ao data-room?'', pergunta.
Para o presidente do Sindicato dos Engenheiros do Paraná (Senge), Carlos Roberto Bittencourt, o caso pede rigor. Ele diz que o governo do Estado deve destituir toda a diretoria da Copel e abrir auditoria para apurar os contratos. ''As parcerias firmadas com a iniciativa privada são imorais'', acusa. ''O primeiro passo para se reverter as irregularidades é que o governo do Estado faça uma intervenção na estatal e considere esses contratos ilegais'', afirma. Opinião semelhante tem o senador Osmar Dias (PDT). Ele também quer a revisão dos contratos assinados entre a Copel e empresas privadas ao que tudo indica, seriam 29 porque, a seu ver, as parcerias não trouxeram nenhum benefício para a estatal e tiveram um só objetivo: ''drenar recursos para alguns privilegiados''. ''Fico envergonhado em ver que antigos funcionários da Copel aceitaram participar disso'', afirma Cascaes.
O presidente do Sindicato dos Engenheiros diz, ainda, estranhar o fato de as parcerias terem sido firmadas logo após a autorização dada pela Assembléia Legislativa para a privatização da Copel. ''Parecem ter o objetivo de beneficiar certas pessoas, que são ex-diretores da estatal. Não só o contribuinte está perdendo com os contratos, mas também os acionistas da Copel. Afinal, a estatal está repassando dinheiro para outra empresa executar serviços que ela fazia sozinha'', diz.
Outro susto reservado aos potenciais compradores da Copel no data room da empresa: o novo dono da companhia não poderá se livrar tão facilmente dos novos sócios. Estão previstas multas milionárias em caso de rescisão de contrato com as ''parceiras'' Tradener e Escoeletric. Bittencourt não tem dúvidas de que isso provocou desinteresse dos grupos financeiros no leilão. O Sindicato está ingressando com recurso no Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar anular os dois contratos. A ação pede ainda que o leilão da Copel seja definitivamente cancelado. Osmar Dias informa que o seu partido, o PDT, entrou no Ministério Público com pedido de investigação dos contratos. O objetivo é claro: abrir a 'caixa preta' que, até agora, só os grupos pré-qualificados tiveram o privilégio de conhecer.


