O morango está entre as culturas relevantes no Paraná, em especial no Norte Pioneiro
O morango está entre as culturas relevantes no Paraná, em especial no Norte Pioneiro | Foto: Gina Mardones -Grupo Folha

O Paraná tem solo fértil, predominância de pequenas propriedades rurais, regiões mais frias e outras tropicais, além de uma das melhores posições geográficas em relação aos principais mercados consumidores de frutas do País e do Mercosul. Mesmo assim, deixa de explorar esse mercado que apresenta receita cinco vezes superior à dos cereais por hectare e que poderia ampliar, e muito, a circulação econômica mesmo nas cidades menores.

A opinião é do pesquisador colaborador do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná) Sérgio Carvalho, que participa de um grupo de especialistas que trabalha junto ao governo estadual para fomentar a produção de uvas, mas que enxerga a oportunidade de se produzir praticamente todos os tipos de fruta por aqui. “Falo de potencialidade, porque não estamos competindo e a ideia não é passar os outros cinco estados à frente e nos tornarmos os primeiros”, diz. “Mas pense somente em Foz, região que produz poucas frutas e é um dos maiores destinos turísticos do País, onde hotéis consomem uma grande quantidade de frutas que vêm de outros estados”, lembra Carvalho.

O pesquisador cita que os países do Mercosul também importam muitas frutas, que cruzam por vezes cinco estados antes de entrar em países que fazem fronteira com o Paraná. “Temos produtores de etnias que se adaptam bem à fruticultura, acesso facilitado a outros países, infraestrutura para distribuição e a força das cooperativas que ajuda na formação de grupos”, conta Carvalho.

O entusiasmo com a cultura não é em vão. “Um hectare de abacaxi rende R$ 50 mil em uma safra, quando a soja não dá metade disso. A uva pode render bem mais que isso e oferecer mais do que uma safra em algumas regiões”, conta o pesquisador, que estuda há 50 anos a fruticultura e atua no Iapar, responsável pelos avanços mais importantes na região em citros, uva e banana.

No Norte Pioneiro, esse potencial já é uma realidade. O gerente regional do Emater (Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural) em Santo Antônio da Platina, Maurício Alves, destaca as culturas de morango, goiaba, abacaxi, maracujá, uva niagara, pitaia e abacate como mais relevantes. “Cada uma tem uma peculiaridade, uma estratégia, mas todas são próprias para que o pequeno produtor se mantenha na atividade com menos de 15 hectares.”

A região de Santo Antônio aparece como uma das principais em fruticultura no Estado, com VBP (Valor Bruto da Produção) de R$ 350 milhões divididos em 3,5 mil produtores, diz Alves. O grupo das frutas teve um VBP de R$ 1,68 bilhão em 2018, segundo a Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento. “Somente morango gera R$ 40 milhões ao ano em Jabuti, que é um valor respeitável e gera uma boa movimentação financeira em uma cidade pequena”, conta o gerente no Emater, sobre o município com 5,2 mil habitantes, conforme projeção do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Boa parte dos produtos oriundos do Norte Pioneiro tem mercado cativo. Alves cita que o morango é reconhecido, a goiaba de Carlópolis já evolui para atingir mercados exportadores e produtos como pitaia, abacate e abacaxi ganham aos poucos o interesse dos agricultores locais. “O que sempre defendemos é que esse desenvolvimento ocorra sempre em grupos, associações e cooperativas”, cita o gerente no Emater.

De Londrina, a Integrada Cooperativa Agroindustrial tem um projeto criado em meio à crise das cotações das commodities, em 2007, para a citricultura. O gerente industrial de sucos da Integrada, Paulo Antonio Rizzo, conta que a ideia foi oferecer uma alternativa menos suscetível a intempéries climáticas e com bom retorno financeiro em áreas pequenas. “Mesmo hoje, ouvimos sobre o risco de problemas econômicos, guerra comercial, e a fruticultura pode ser um anteparo, uma possibilidade de ganho ao produtos.”

Rizzo considera que a rentabilidade da laranja é até cinco vezes superior à de cereais em uma mesma área. Ainda, a cooperativa lançou nos últimos meses um projeto de cultivo de limão, para aproveitar a capacidade ociosa da indústria justamente nos meses de entressafra da laranja. “Existem outras possibilidades de citros em estudo, como a tangerina e o pomelo, porque o pessoal está animado com os ganhos com a laranja”, conta.

MICROEMPREENDEDORES RURAIS


A falta de mão de obra no campo é um problema para a fruticultura em larga escala, mas esse problema é superado na produção familiar em pequenas propriedades. Porém, o pesquisador colaborador do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná) Sérgio Carvalho diz que a adesão à atividade depende da adoção de tecnologias e exalta justamente a atuação das entidades de pesquisa como o Iapar nesse cenário. “Os pequenos produtores do Paraná não se viabilizam nas culturas comuns, como leiteira ou de grãos, mas as frutas têm alto valor agregado que permite criar os microempreendedores rurais”, diz.

Ele destaca que o governo do Estado busca incentivar, por exemplo, a produção de uva pelo consumo de sucos e vinhos, mas frisa que a adaptação aos ecossistemas regionais e a tecnologia são o que garantem a viabilidade dos negócios. “Temos hoje um projeto encaminhado pelo governo à Assembleia [Legislativa] para fundir o Iapar a entidades como Emater e Codapar, o que, na nossa visão como pesquisadores, ameaça o desenvolvimento de pesquisas”, diz.

Carvalho destaca que a produção de laranjas foi proibida até os anos 80 no Paraná, por um suposto risco de cancro cítrico. “Foi o Iapar que desenvolveu a tecnologia que permitiu combater a doença e superar esse entendimento e hoje temos quatro indústrias de laranja que geram muita receita para o Estado e para as propriedades menores.”

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