Paraná lidera desempenho das empresas emergentes
Pesquisa avaliou resultados de organizações com faturamento anual entre R$ 300 mi e R$ 1,2 bi, de 2020 a 2024; Paraná se destaca em performance
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de novembro de 2025
Pesquisa avaliou resultados de organizações com faturamento anual entre R$ 300 mi e R$ 1,2 bi, de 2020 a 2024; Paraná se destaca em performance

Um estudo sobre companhias brasileiras em fase de expansão, classificadas como “empresas emergentes”, chama a atenção para um segmento ainda pouco analisado no país, mas em crescente relevância para a economia nacional. O levantamento analisou organizações com faturamento anual entre R$ 300 milhões e R$ 1,2 bilhão, estruturas consolidadas que já superaram o período mais crítico do ciclo de vida empresarial e apresentam elevado potencial de crescimento. O Paraná aparece em destaque entre as empresas com melhor performance.
Realizada pela Novary Advisory, empresa de consultoria com foco em estratégia, crescimento e mercado de capitais, a pesquisa analisou uma amostra de 1.033 organizações, localizadas em todas as regiões do país, e o período avaliado foi de cinco anos, entre 2020 e 2024.
O objetivo foi compreender a dinâmica e o desempenho de empresas consideradas fortes candidatas a ingressarem, nos próximos anos, no grupo das grandes corporações brasileiras.
Embora muitas vezes chamadas de “middle market”, o levantamento preferiu evitar esse termo, usado de formas distintas em estudos nacionais e internacionais, e o substituiu por “empresas emergentes” para definir negócios de porte intermediário e forte trajetória de expansão.
Em conjunto, segundo a pesquisa, as emergentes registraram média de crescimento de 14,1% ao ano no período avaliado, acima da economia brasileira, com média de retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) de 15,0% anuais. Resultados que demonstram sua relevância e capacidade de geração de riqueza.
Apesar da importância econômica, o segmento ainda é pouco estudado por analistas de mercado e pesquisas estratégicas no Brasil. “A gente sentiu falta de informações sobre quem são as empresas, tipo de desempenho e de característica e sua importância para a economia, jogar luz sobre o segmento de emergentes”, disse o CEO da Novary Advisory, Ivan de Souza.
Na análise por estados, São Paulo concentra o maior índice de empresas emergentes, com 43% das 1.033. Abaixo, estão Minas Gerais e Rio de Janeiro, com 10% cada um, seguidos por Rio Grande do Sul, com 7%, o melhor resultado da Região Sul. Na sequência, vêm Santa Catarina (6%) e Paraná (5%).
No mapa de desempenho, desenhado conforme o resultado nas vendas e retorno aos acionistas, 10% das empresas paranaenses avaliadas foram enquadradas no grupo de “melhor performance”, que associa crescimento nas vendas e alto retorno.
Nos últimos cinco anos, a Região Sul, liderada pelo Paraná, apresentou a maior incidência de empresas emergentes de melhor performance. O Estado teve 48% das empresas enquadradas nesse grupo. O Rio Grande do Sul e Santa Catarina tiveram 37% cada um. O quarto melhor resultado no país foi do Espírito Santo, com índice de 35%. “O Paraná tem o maior crescimento na totalidade das suas empresas na amostra. Parte importante desse desempenho é alto crescimento”, apontou Souza.
Em contrapartida, a presença de empresas paranaenses no quadrante de “baixo desempenho” - com baixo crescimento nas vendas e baixo retorno aos acionistas - é pequena, o que pode estar relacionado à pujança econômica estadual.
A pesquisa também apontou uma forte dispersão de resultados. Ao observar uma “nuvem” de pontos com o desempenho individual das empresas, nota-se que muitas delas superam amplamente as médias de crescimento e retorno, enquanto outras ficam bem abaixo. Essa heterogeneidade é típica de negócios em expansão acelerada.
No Paraná, Londrina se destaca por ter uma gama de empresas que corroboram os dados da pesquisa. Uma delas, a The Best Açaí, vem se sobressaindo no mercado por sua evolução. Em 2020, primeiro ano do recorte da pesquisa, a empresa que inovou no país ao vender açaí pelo sistema self-service, ainda iniciava a sua trajetória. Mas o crescimento se acelerou entre 2021 e 2023. A rede de franquias encerrou 2023 com a venda de 500 lojas.
"Um ponto fundamental para isso foi a construção da estrutura de produção. Lá em 2020, juntamente com meus outros dois sócios, percebemos que para manter a padronização e escalar sem sacrificar a qualidade, precisaríamos ter controle sobre a produção. Assim nasceu a Amadelli, indústria própria para fabricar o açaí, os sorvetes. Esse passo foi decisivo porque reduziu a dependência de fornecedores externos e permitiu acelerar a expansão", contou o sócio fundador e CEO da The Best Açaí, Sérgio Kendy. Em 2024, a rede contabilizava 697 franquias em operação.
Financeiramente, esse crescimento também se refletiu em escala. Em 2023, o faturamento do grupo chegou a R$ 400 milhões e, em 2024, ultrapassou os R$ 779 milhões, superando a expectativa, e a projeção é que encerre 2025 rompendo a barreira de R$ 1 bilhão. O resultado expressivo garantiu à empresa o selo de excelência em franchising pela ABF (Associação Brasileira de Franchising).
Baixa internacionalização
Apesar dos números positivos, o estudo identifica um ponto de atenção no Paraná: a baixa participação das empresas emergentes em mercados internacionais.
O estudo concluiu que o grupo das empresas emergentes é um dos mais promissores para investimentos no país. Elas combinam rentabilidade elevada, crescimento acelerado e contribuição significativa ao PIB, além de apresentarem diversidade setorial e força regional.
O Paraná está atrás do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina em termos de internacionalização. Quando consideradas apenas empresas familiares, as paranaenses também têm presença menor no exterior.
Kendy avalia que nos dois últimos anos a empresa ganhou "maturidade institucional". Em outubro de 2025, o grupo recebeu um aporte de R$ 80 milhões da Auster Capital, o que além de marcar o reconhecimento do mercado, inaugura uma nova fase de expansão com maior estrutura de governança. "Parte desse capital está sendo destinado para a internacionalização, algo que já vinha sendo desenhado há algum tempo."
O primeiro passo nessa direção já foi dado com a expansão para o Paraguai. "Esse movimento agora está sendo ampliado, com estrutura profissional e com franqueado que investe naquele país. Estamos preparando a cadeia industrial e logística para atender novos mercados, com plano para avançar para os Estados Unidos, com as primeiras operações já funcionando em 2026. A internacionalização não será só abrir lojas", adiantou Kendy.
Empresas familiares
Quando se olha apenas para as empresas familiares, o resultado do Paraná entre as internacionalizadas é um dos piores no país, com 74% do total. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, esse índice é de 56% e 57%, respectivamente. O Espírito Santo, com 38%, tem o menor percentual de empresas familiares que não foram internacionalizadas.
A pesquisa propõe algumas hipóteses para explicar essa ocorrência. A principal delas é a composição setorial. Atividades como comércio, serviços e transporte e logística, muito presentes entre as emergentes paranaenses, tendem a operar em mercados mais locais e nacionais. “Internacionalizar traz diversificação de riscos e amplia as avenidas de crescimento. É uma agenda importante para empresas que querem dar o próximo salto”, avaliou Souza.
Equilíbrio setorial
O Paraná é o estado com maior equilíbrio setorial entre as emergentes. Comércio e serviços, transporte e logística e produtos químicos e materiais aparecem empatados com cerca de 13% cada setor. Esse cenário de diversidade contrasta com estados como o Rio de Janeiro, onde o setor de energia representa 30% das empresas emergentes.
Souza avalia que essa diversidade ajudou o Paraná a se manter resiliente, inclusive em períodos críticos, como a pandemia. Já no Rio Grande do Sul, mesmo com as enchentes recentes, o desempenho das emergentes surpreendeu positivamente, e a perda pontual de 2024 não foi suficiente para alterar a trajetória no acumulado de cinco anos.
Sucessão familiar deve ser discutida e planejada, diz especialista
A pesquisa da Novary Advisory identificou no Paraná uma das maiores proporções de empresas familiares entre as emergentes no país. Segundo o estudo, 57% das organizações avaliadas se enquadram nesta classificação, atrás apenas do Rio Grande do Sul, com 61%.
Empresas emergentes estão em expansão e começam a enfrentar desafios típicos de organizações maiores, como governança, internacionalização e profissionalização da gestão. E é neste ponto que se torna fundamental a discussão e o planejamento sobre a sucessão familiar.
À medida que avançam para um novo patamar de governança e crescimento, muitos desses negócios precisam enfrentar esse desafio. No Brasil, 70% a 80% de todas as empresas em atividade são familiares, destacou o advogado especialista em direito corporativo, Felipe Gomes.
Muitas organizações geridas por membros de uma mesma estrutura familiar, por dificuldade de enfrentarem o tabu da sucessão, passam por situações desafiadoras em razão da morte inesperada ou do adoecimento do seu fundador. O primeiro desafio talvez seja quebrar a barreira psicológica que impede que o tema seja tratado com naturalidade e antecedência. "É preciso aceitar e planejar com antecedência e não como emergência", ressaltou Gomes.
A primeira etapa passa pela governança, que consiste em um conjunto de documentos e processos que devem ser organizados. "Governança é organizar decisões, papeis e negócios. Em resumo, se profissionalizar e não depender de pessoas, mas de processos", explicou o especialista. "Se não tiver essa organização, não adianta. Pode definir em um documento quem vai assumir a empresa, vai ter uma sucessão jurídica, mas se essa pessoa não estiver preparada, em um ou dois anos, a empresa fecha as portas. Não por incompetência, mas por falta de preparo", disse Gomes.
Estabelecida a governança, o segundo passo é cuidar da estrutura jurídica e societária. Fazer um acordo de sócios, responsáveis pela tomada de decisões, criar um conselho de administração ou conselho familiar e definir a quem cabe a última palavra em caso de divergências de opinião é um cuidado que evita dores de cabeça futuras.
Os caminhos que serão percorridos por empresas familiares, lembrou Gomes, não podem ser discutidos em um almoço de domingo. "A gente sugere que se crie um conselho de administração dessa família e que tenha até um conselheiro externo para orientar, pode ser da área do direito ou da administração." O conselho permite que decisões sejam tomadas de forma profissional e estruturada. "Há pais fundadores que formam o conselho, mas têm o voto de ouro (decisivo). Os herdeiros conseguem participar, entender as decisões e os externos conseguem ajudar nisso também, emitindo opinião técnica. A gente sempre coloca esse acordo de sócios como algo primordial."
Se nenhuma preparação foi feita e os membros da família são pegos desprevenidos diante da falta do fundador, a orientação também é constituir o conselho de administração ou familiar e o ideal é que essa formação não passe pelo âmbito judicial, mas seja fruto do diálogo e do acordo entre as partes. "Os filhos tocam como executivos e o conselho familiar decide as decisões importantes, com com prestações de contas periódicas. A sucessão pode ser gradual, na qual o fundador continua decidindo", apontou Gomes. "Esse é o caminho racional. A briga judicial resulta, em 80% dos casos, em falência. Gera problemas empresariais."
Nesse processo, um aconselhamento e apoio jurídico pode ser de grande ajuda. "Ter um bom advogado quase parte para a psicologia na negociação. Ele vai ouvir, entender as vontades de cada um e tentar costurar um acordo que fique bom para todos. Cada um abre mão um pouquinho."
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Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.


