Paraná desperdiça 35% de água; índice nacional é ainda maior
Em Roraima, 75% dá água tratada não chega aos consumidores; já em Goiás, são apenas 26%
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de junho de 2019
Em Roraima, 75% dá água tratada não chega aos consumidores; já em Goiás, são apenas 26%
Nelson Bortolin - Grupo Folha 

O Paraná é um dos estados que menos desperdiçam água tratada. Mesmo assim, a quantidade que se perde devido a vazamentos, erros de leitura dos hidrômetros e furtos é de 35%. Ou seja, a cada 100 litros tratados, 35 não chegam ao consumidor. Roraima é o estado mais esbanjador, onde 75% da água é desperdiçada e, Goiás, o mais “eficiente” (26% de perda). Na média, o País joga fora 38,3% da água tratada.
Os números são do relatório “Perdas de água 2019 – desafios para disponibilidade hídrica e avanço da eficiência do saneamento básico”, feito pelo Instituto Trata Brasil, em parceria com a GO Associados, a partir de dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS).
Consideradas apenas os vazamentos, são 3,5 bilhões de metros cúbicos por dia, quantidade suficiente para abastecer 30% da população brasileira por um ano (60 milhões de pessoas). Devido a erros de leitura dos hidrômetros e furtos, são mais 3 bilhões de metros cúbicos, totalizando 6,5 bilhões de metros cúbicos, o que seria equivalente a mais de 7 mil piscinas olímpicas por dia.
A perda de faturamento em 2017 foi de R$ 11,3 bilhões, valor superior ao total de recursos investidos em água e esgoto no Brasil naquele ano (R$ 11 bilhões).
Segundo o levantamento, o indicador de perdas na distribuição (38,3%) apresentou aumento de 1,3 ponto porcentual nos últimos cinco anos e o indicador de perdas de faturamento (36,9%) praticamente se igualou ao de 2013, quando era de 36,9%.
Segundo Marcelo Depexe, engenheiro da área de Desenvolvimento Operacional da Sanepar, o Índice de Perdas na Distribuição da companhia foi de 34,2%. “É importante esclarecer que este indicador não mede exclusivamente o desperdício de água, no sentido de água não utilizada, como ocorre nos vazamentos. Ele se refere à parcela de água que não foi apurada pelos hidrômetros”, afirma. Nesta conta, além dos vazamentos, estão todas as formas de uso em que não ocorreu a medição pelo hidrômetro, seja pela submedição provocada pelo desgaste do equipamento ou pelos usos não autorizados (ligações clandestinas e fraudes).
O Município de Ibiporã, que tem serviço municipalizado de água e esgoto (Samae), apresenta índice de perda maior que a média estadual. Segundo o diretor-presidente, Edvaldo de Paula, o atual sistema de medição aponta 40% de desperdício.
Mas ele acredita que, na verdade, o indicador seja ainda mais alto, se aproximando de 50%. Em breve, de acordo com o presidente, a empresa terá uma medição mais precisa.
Paula conta que o programa de educação ambiental, que combate o desperdício de água, ficou muito tempo “abandonado” na cidade e agora está sendo restabelecido. Ele diz que Ibiporã já teve um sistema mais eficiente. Há cerca de dez anos, as perdas eram de apenas 28%.
A Samae pretende licitar um sistema de telemetria que vai ser capaz de reduzir boa parte das perdas, apontando com mais precisão onde existem vazamentos. Hoje, quando eles não são aparentes, são descobertos por um equipamento que mede a pressão da água na tubulação. É comum também que os moradores ouçam barulho nas galerias e avisem a empresa.
A meta da Samae, segundo o presidente, é baixar as perdas para 30% até o final do ano.
EM TODO O MUNDO
As perdas em outros países são bem menores que no Brasil. A comparação, neste caso, é pelo índice de perda de faturamento. O do Brasil é de 39,2%. Na Dinamarca, são 6,9% (dado de 2015). Na Austrália, 10,3% (2013) e, nos Estados Unidos, 12,8% (2011). Na China, Bangladesh, Senegal e África do Sul, as perdas também são menores: 20,5% (2012), 21,6% (2017), 33,2% (2014) e 33,7% (2017). Já, na Etiópia, perde-se 38% (2017).
O engenheiro da Sanepar explica as diferenças: “Em geral, países com baixos índices têm topografia favorável ao controle de pressão, dispõem de políticas de atualização tecnológica mais frequentes, utilizam materiais de rede mais resistentes, como ferro e aço ao invés de PVC, além de apresentar índices muito baixos de fraudes e ligações clandestinas”, alega.
Maringá é uma das cidades que têm menor perda
Os índices de perdas de água variam muito não só de um país para outro. As cidades também apresentam indicadores bastante diferentes. Segundo levantamento do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento) com os 100 maiores municípios brasileiros, Porto Velho, a capital de Rondônia, tem 77% de perdas na distribuição, sendo a mais esbanjadora. Na outra ponta, o índice de Santos é de apenas 14,3%.
As cidades paranaenses não estão mal na lista. Maringá é uma das que menos desperdiçam (22,5%), oitavo melhor resultado. Curitiba tem 26,1% de perdas, 15ª colocada na lista dos sistemas mais eficientes. Cascavel apresenta um índice de 32,7%, Londrina, de 34,7%, e Ponta Grossa, 42,4%.
Segundo o engenheiro da área de Desenvolvimento Operacional da Sanepar, Marcelo Depexe, muitas as variáveis influenciam nos índices. “A perda por vazamentos é proporcional à pressão na rede. Assim, em municípios com topografia mais irregular, o controle da pressão é mais difícil. Existe a tendência de áreas com pressão elevada, o que aumenta os vazamentos”, afirma.
A idade da rede, o tipo de material utilizado e até o tipo de solo influenciam. “Por exemplo, na região noroeste do Paraná, os vazamentos afloram na superfície, o que facilita a identificação. Já, em outras áreas, o vazamento infiltra, de forma a demorar mais tempo para ser identificado.”
Outros fatores que provocam as diferenças, segundo o engenheiro, estão relacionados às características do parque de hidrômetro e a presença de áreas irregulares e assentamentos, que consomem água em grande quantidade e de forma irregular, que ocorre principalmente em municípios de maior porte. (N.B.)



