Para Pinguelli, venda da Copel 'é coisa de maluco'
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quinta-feira, 08 de março de 2001
Emerson Cervi De Curitiba 
A proposta de privatização da Copel é coisa de maluco. Essa é a opinião do professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luiz Pinguelli Rosa. Ele participou ontem do primeiro dia do seminário Energia Elétrica: privatização, regulação econômica e seus impactos para os consumidores, organizado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), em Curitiba. Para Pinguelli, o maior problema é que o modelo de privatização do setor elétrico no Brasil não foi bem sucedido e precisa ser interrompido.
A justificativa do governo do Paraná para a venda da Copel está baseada na possível perda de competitividade da empresa em um mercado aberto. Hoje, a Copel detém o monopólio da distribuição de energia elétrica no Paraná. A partir de 2003 empresas privadas poderão oferecer energia aos consumidores locais, competindo com a estatal. O presidente da Copel, Ingo Hubert, diz que uma empresa pública é muito burocratizada e não tem condições de oferecer energia a preços competitivos, perdendo grandes fatias do mercado. Temos a lei de licitações que traz amarras e estamos proibidos de tomar empréstimos no exterior ou junto ao BNDES. Só isso já representa uma perda de competitividade enorme, afirma Hubert.
Suas declarações são contestadas pelo professor. O governador do Paraná está equivocado ou mal assessorado. De acordo com o Pinguelli, as hidrelétricas estatais conseguem produzir energia muito mais barata que as termelétricas ou hidrelétricas que vierem a ser construídas pela iniciativa privada. O custo da construção das usinas públicas já foi amortizado e o nível de endividamento delas é baixo, o que garante as melhores condições de competição no mercado. Hubert rebate e diz que a situação descrita por Pinguelli está se alterando à medida que novas empresas são privatizadas e passam a disputar mercado com mais agressividade.
Usinas estatais como as do sistema Furnas e da Copel têm um custo de produção que varia entre R$ 4,00 e R$ 10,00 o megawatt/hora. Quando começar a produzir energia, as temelétricas brasileiras terão custo de até R$ 70,00 megawatt/hora, segundo o professor. Isso porque a maioria das termelétricas projetadas vai usar o gás natural importado da Bolívia, que tem seu preço cotado em dólar e sensível às variações cambiais. No final, o maior prejudicado será o consumidor.
Além da competitividade, Pinguelli chama a atenção para o fato do programa de privatização da área de energia não prever o aumento da produção. O que os governos pretendem fazer, como o do Paraná, é transferir a atual produção de energia que hoje é estatal para a iniciativa privada. Os defensores dessa política acreditam que o mercado vai fazer investimentos no sistema, mas não há nenhuma garantia disso. O presidente da Copel disse que o governo estuda exigir que a empresa compradora da estatal invista em geração.
Pinguelli cita o exemplo da usina Excelsa, primeira a ser privatizada, no início da década de 90. O grupo norte-americano que assumiu o controle da empresa investiu US$ 500 milhões nos dois primeiros anos, como previa o edital de venda. Já no terceiro ano o acionista majoritário retirou US$ 300 milhões. De fato, eles não investiram nada, infelizmente a maioria dessas empresas interessadas no setor elétrico está interessada em tirar lucros do Brasil e não deixar dinheiro aqui.
Pinguelli acredita que apenas dois motivos justificam a continuidade do programa de privatização do sistema de energia elétrica: as comissões pagas aos consultores que emitem pareceres favoráveis às vendas e as ofertas de emprego na iniciativa privada. São interesses egoístas que estão movendo a maior parte dos homens de governo.
O seminário organizado pelo Idec continua hoje. Representantes da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e de agências reguladoras participam dos debates.


