Pecuaristas e veterinários que estiveram na Redação da Folha, na semana passada, argumentaram que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) descumpriu o acordo feito com técnicos e pecuaristas paranaenses para confirmar o foco de febre aftosa no Estado. Esse acordo foi definido em novembro, na fazenda do ministro Roberto Rodrigues, em São Paulo. ''Para quem interessa um foco de febre aftosa no Paraná? Não houve a manifestação de sinais clínicos em nenhum animal, nenhum deles desenvolveu a doença e não sabemos qual o tipo de vírus que acometeceu o rebanho paranaense'', afirmou o pecuarista Alexandre Turquino.
Eles lembram que a ocorrência da aftosa em São Paulo foi descartada sem ao menos a realização de exames sorológicos. Por isso, a crença é que o foco foi confirmado baseado em ''interesses escusos'' de técnicos do Mapa. Na reunião realizada com o ministro, teria sido acertado que seriam colhidas 209 amostras de líquido esofágico-faríngeo (LEF) na Fazenda Cachoeira, em São Sebastião da Amoreira e que esse material seria enviado para análise ao Laboratório Nacional Agropecuário (Lanagro) de Belém (PA).
Até então, a propriedade estava longe dos holofotes. Em novembro, a suspeita recaia sobre quatros fazendas localizadas em Amaporã, Grandes Rios, Loanda e Maringá. ''Fomos traídos pelo ministério que, de maneira furtiva e traiçoeira, colheu sorologia ao invés do LEF'', disse Raimundo Tostes, veterinário doutor em Patologia Animal e coordenador do curso de Veterinária do Cesumar (Maringá). Essa coleta teria sido feita nas cinco propriedades.
''Tínhamos um acordo de que o resultado apresentado pelo ministério seria o reflexo da realidade do rebanho e isso não foi cumprido'', afirmou Tostes. Segundo ele, todos os resultados de LEF deram negativos. Somente 23 animais da Cachoeira e 2 da Fazenda Izabel, de Grandes Rios, reagiram positivamente nos exames de sorologia. As amostras de sorologia foram encaminhadas ao Lanagro de Porto Alegre (RS), ao contrário do que havia sido acordado.
''Com os diagnósticos inconclusivos, o ministério alegou que os animais teriam a doença por causa da vinculação epidemiológica'', comentou o veterinário. Ele acrescentou que os animais apresentavam lesões, compatíveis com qualquer enfermidade vesicular. ''Temos críticas quanto ao modo como a Seab procedeu nesse caso. Não concordamos com a metodologia usada'', observou. Na sua avaliação, é ''inegável'' que o foco confirmado no Paraná é inconsistente.
Para fundamentar a afirmação, eles lembram que no Mato Grosso do Sul foram registrados mais de 30 focos em mais de 360 propriedades. ''No Mato Grosso do Sul o vírus foi isolado em uma semana. A suspeita foi levantada dia 4 de outubro (mesmo dia do Leilão 10 Marcas que comercializou animais trazidos do MS), no dia 9 as fazendas foram interditadas e no dia 10 o foco foi confirmado'', lembrou o pecuarista José Moacir Turquino, organizador do leilão. O Paraná teria sido alertado sobre a suspeita da doença apenas no dia 9. No Estado, 137 mil cabeças de mais de 800 propriedades ainda não foram vacinados e também não desenvolveram a doença.
A reportagem tentou entrar em contato com técnicos do Mapa, mas a informação era de que eles não estavam na prédio do órgão.

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