Para onde estamos indo?
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de abril de 1998
Francisco Antônio Feijó 
Para alguns, estamos dentro de uma grande bolha, criada por fatos conjunturais que deverão em poucos meses, serem superados e tudo voltar à normalidade.
Para outros o ingresso em um período longo de deflação, irá agravar o problema que aflige a maioria dos brasileiros, já não se falando somente no contingente dos trabalhadores e sim de uma forma geral e, para outros, as coisas estão caminhando normalmente, dentro de um projeto pré-estabelecido, em que a base era exatamente a redução do consumo, para manter a moeda forte, mesmo sabendo-se que para isto, iriam acontecer fatos como os que agora estão acontecendo, desemprego e quebras.
Seria o momento de perguntar, se não estaria na hora de um ajuste no projeto?
E essa pergunta surge, no momento em que os patrões e empregados, buscam através da criação de um banco de horas evitar o desemprego e o acréscimo de custo da mão-de-obra.
E o banco de horas o que é, senão a compensação do maior número de horas trabalhadas em um dia, com a redução da jornada em outros, sem a necessidade do pagamento de horas extras com os acréscimos previstos em lei.
Isto não seria necessário se estivéssemos trabalhando em condições normais, com projetos industriais em franca evolução e a demanda aquecida.
É o imprevisível do dia-a-dia, impedindo as empresas de terem quadros reduzidos de empregados face ao alto custo das recisões, para esses cortes.
A formação de um trabalhador técnico, custa muito caro para uma empresa e simplesmente demiti-lo, por existirem poucos pedidos em carteira, poderá custar muito mais caro, se derepente o volume de pedidos aumentar e tiver a empresa que contratar novos funcionários.
Até treiná-los, e colocá-los em condições de trabalho, estará perdendo muito tempo e talvez não possa atender aos prazos dos pedidos.
O banco de horas com certeza para os trabalhadores é uma solução inteligente, não obstante possa reduzir seus ganhos no geral.
Entretanto, receber menos, compensando horas a mais de um dia com menos em outros, é melhor do que não receber nada, ficar desempregado.
O que preocupa, entretanto, é o tamanho da bolha quanto tempo teremos ainda que esperar para um aquecimento na economia e um novo aumento na demanda.
Isto talvez esteja fora dos planos daqueles que montaram o atual projeto econômico, que está conseguindo manter estável nossa moeda, que diga-se de passagem, é forte, que se observe quando se sai do País.
Será que o caminho não é pior aí mesmo. Será que não é preciso chegarmos ainda mais fundo, para solucionar o problema e aí então, ajustar o projeto - REAL e incrementar o consumo, abrindo novos pontos de trabalho.
Uma coisa é certa. Passada a euforia que vivia o brasileiro, no regime do compra tudo e paga como pode, sente-se já que a inadimplência não obstante acelerada, tem dois pontos importantes de apoio. O primeiro, mais lógico, o desemprego e a impossibilidade daqueles que estão aguardando espaço para trabalhar, e obter recursos para liquidar seus compromissos. Eo segundo, aqueles que mesmo sabendo que não poderiam comprar, pois não tinham como faze-lo, compravam e ficavam aguardando o dia de amanhã, jogando com futuros aumentos de salários e horas extras, que simplesmente acabaram, e se existirem, serão em geral, compensadas, dentro do banco de horas.
Não sabemos se estamos certos, não conhecemos o tamanho da bolha que já está girando a mais de três meses, desde o final do ano-passado, entretanto, esperamos que o exemplo de qualquer outra bolha não se dissolva, ou não estoure, pois a situação do trabalhador aí então ficará ainda mais difícil.
Esperamos que os homens que idealizaram o plano, estejam acompanhando o andar dessa bolha e que façam os ajustes que planejaram, pena de com o aumento da deflação que é tão grave com a inflação, passarmos a enfrentar um problema nunca antes conhecido no Brasil, a perda de valor de nossas economias, quando o dinheiro ganho hoje, valer menos, a cada dia seguinte, e sentirmos nosso patrimônio reduzir em seu valor.
E isso será ainda mais forte, se os serviços públicos, os ajustes de imposto não forem evitados, se efetivamente o governo também não entrar na bolha e procurar se adaptar a situação geral.
Caso contrário, estaremos passando a conviver com a situação totalmente nova no Brasil, o empobrecimento do trabalhador, com o enriquecimento do Estado.
Quem sabe com esse procedimento tenhamos condições de sanar novas dívidas externas e aí sim, reajustar o plano e incrementar a demanda, com o aquecimento interno da economia e o surgimento de novas frentes de trabalho.
Será que estamos certos em nossas expectativas?
Para onde estamos indo?


