Ribeirão Preto - O diretor do Departamento do Açúcar e do Álcool do Ministério da Agricultura, Ângelo Bressan Filho, sinalizou, ao encerrar no sábado o seminário Posicionamento Estratégico do Setor Sucroalcooleiro, que os usineiros irão encontrar dificuldades junto ao governo federal para aumentarem a mistura do álcool anidro à gasolina ou mesmo para adicioná-lo ao diesel. ''Não há crise no setor e sim momentos de ajustes. Isso ocorre porque a produção não cresce ou cai de forma contínua, mas o consumo sim e em velocidade diferente'', disse Bressan.
Ele não opinou sobre o pedido feito pelos usineiros para escoar os estoques de álcool e disse ser interessante o assunto a ser discutido no recém-criado Pólo Brasileiro de Biocombustíveis, inaugurado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no mês passado em Piracicaba (SP). ''O aumento na mistura é um assunto técnico. O Pólo de Biocombustíveis reúne técnicos que podem ajudar o governo a decidir se os veículos não serão prejudicados. Além do mais, a mistura de 25% do anidro na gasolina é uma lei, ela teria de ser mudada e isso cria uma imagem muito ruim junto ao consumidor'', explicou Bressan. O diretor pediu ao setor sucroalcooleiro que seja mais agressivo nas técnicas de distribuição e que faça um pacto com o consumidor.
''Não é possível que o álcool hidratado seja vendido a R$ 1,70 em Belo Horizonte e a R$ 0,70 em cidades paulistas. O setor deveria informar isso ao consumidor para corrigir essas diferenças'', disse Bressan. Por fim, ele afirmou ainda que o governo tem outros instrumentos para intervir no mercado de álcool, como o financiamento para a estocagem em 2004 com vencimento ampliado de um para dois anos e a prorrogação das parcelas do financiamento feito em 2003 que vencem em março e abril por mais um ano como ocorreu em janeiro. ''Portanto, não é um ciclo de preços baixos que vai prejudicar o setor'', concluiu.
O usineiro Maurílio Biagi Filho, membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do governo federal, disse que a única saída para resolver, a curto prazo, a crise do setor é o aumento na mistura do álcool anidro à gasolina, hoje em 25%, e a mistura ao diesel. ''O governo tem de acudir o produtor interno para que seja coerente com o seu discurso'', disse o Biagi, que ainda qualificou o governo federal como ''parceiro''.
Para ele, quando há uma situação de preços tão baixos do álcool e do açúcar como agora há duas soluções: a primeira seria diminuir a produção e deixar a cana sem cortar nessa safra e a segunda aumentar a demanda. ''Deixar a cana em pé seria mais barato, mas é impossível de ocorrer no setor. A saída é o aumento na demanda e o governo tem de fazer por meio do aumento na mistura. Não dá para discutir se pode ou não pode'', concluiu o empresário.
O setor sucroalcooleiro estima que o gás natural veicular (GNV) já ''roubou'', desde que começou a ser utilizado em larga escala, um mercado de 1 bilhão de litros de álcool. Só no ano passado, estima-se que 200 mil veículos no País foram convertidos para o uso com GNV. O combustível, subsidiado pelo governo para consumo em veículos, foi ''eleito'' como o maior vilão do álcool combustível por palestrantes do seminário Posicionamento Estratégico do Setor Sucroalcooleiro.

mockup