Para especialistas, Estado é responsável pela crise
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terça-feira, 09 de dezembro de 2008
Karla Losse Mendes<br> Equipe da Folha 
Curitiba - As críticas ao sistema financeiro atual e ao neoliberalismo foram quase unanimidade entre as discussões da mesa ''Crise e Sistema Financeiro'', no segundo dia do seminário Crise - Rumos e Verdades, promovido pelo Governo do Estado. O alvo principal da censura dos especialistas à ideologia foi a baixa intervenção do estado na economia e na especulação financeira.
O economista e pesquisador Alex Izurieta, do departamento de Análise Econômica da Organização das Nações Unidas (ONU), defendeu que essa é uma ''crise anunciada''. Vários economistas já haviam alertado, em muitas oportunidades, que haveria uma recessão na economia mundial. Para ele é importante encontrar nas próprias origens da crise as alternativas para sair dela.
Com o crescimento da economia, o Estado, conforme Izurieta, passou a acreditar no neoliberalismo e na capacidade da iniciativa privada de se auto-regular. ''Nessa idéia de 'deixar fazer' acreditou-se que, ao cuidar de seus próprios negócios, a iniciativa privada não cometeria erros, e esse foi um erro bem grande'', afirmou.
Segundo ele o crescimento projetado pela ONU para 2008 no contexto da crise é de 2,5%, bem abaixo da média de 2007, que foi de 3,8%, ou ainda de 2006, que havia sido de 4%. Apesar de baixo, o número deste ano em nada se compara ao 1% de taxa de crescimento previsto para 2009, em visão moderada. Para as posições mais otimistas do órgão, a economia poderá se recuperar com um crescimento de 1,6% e os pessimistas preveêm uma recessão real global de 0,4%.
Mesmo o crescimento, alerta Izurieta, não será igual em todos os lugares. Os países em desenvolvimento devem crescer em média 4,6%, desempenho melhor em relação aos países desenvolvidos. Entre os primeiros, segundo as projeções da ONU, o maior crescimento deve ser das regiões Leste e Sul da Ásia e pode chegar a 6%. A África deve crescer 4,1% e a América do Sul ficou com a pior projeção entre os que estão em desenvolvimento, 2,3%.
Para o doutor em Economia pela Universidade de Yale, Thomas Palley, a crise é estrutural e só será vencida com reformas estruturais. O momento, como sugere, é também uma oportunidade para mudanças nas políticas econômicas do modelo neoliberal. Seguno Palley, o principal desafio para vencer a crise, garantir pleno emprego e maior igualdade na distribuição de renda, é político e não econômico.
Para Palley um dos indicativos de que a crise aconteceria foi a ampliação, nos últimos anos, da desvinculação entre o crescimento da produtividade e dos salários, que geraram crescente desigualdade de renda e a necessidade de empréstimos para criar demanda agregada.
O economista e assessor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), José Carlos de Assis, também concorda com a idéia de que a crise é um deslocamento entre a órbita financeira e a produção real. ''Não houve nenhuma relação entre a valorização do setor financeiro com o valor do trabalho, foi um dinheiro fictício'', afirmou.
Ele cita como exemplo o valor dos derivativos, que teriam alcançado US$ 600 trilhões em comparação ao valor da soma do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, que não ultrapassaria os US$ 60 trilhões. Para ele, apenas a regulamentação do mercado irá possibilitar a saída da crise. ''Não é apenas a idéia do livre comércio, da autoregulação que entrou em colapso, mas a liberdade sem limites'', afirmou.


