Na maioria das vezes ela passa despercebida pela população. Mesmo quando, mensalmente, toma parte dos noticiários e cria expectativas econômicas para o País, é praticamente ignorada. A taxa básica de juros da economia conhecida como Selic , entretanto, provoca um efeito psicológico e prático quase que de imediato quando o índice sobe. Mas lento, muito lento, quando os pontos recuam.
A verdade é que poucos sabem ao certo o quanto a ''tal'' taxa Selic mexe no bolso e na vida do cidadão ''comum''. O seu efeito chega sutilmente e está embutido indiretamente nos juros do crediário, cartão de crédito, cheque especial e todo tipo de empréstimo.
Já os empresários - tanto do setor produtivo quanto varejista - sentem na pele cada mudança na taxa básica e, todo mês, aguardam com expectativa os ajustes feitos pelos membros do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. As alterações dos últimos meses, na opinião de alguns deles, têm sido anacrônicas e infundadas.
Economistas corroboram a opinião dos empresários e apontam que o resultado é um cenário econômico retrativo e com efeitos lineares e rápidos: o setor produtivo pára. Empresas demitem funcionários. O consumidor, agora sem emprego e sem renda, deixa de comprar. O varejo disputa clientes com a antiga tática de baixar os preços. A deflação é generalizada e a economia entra em recessão.
Nem a ínfima redução da taxa, anunciada na semana passada pelo Copom que passou de 19,75% ao ano para 19,5% poderá aliviar a tensão da economia. ''Para o cidadão comum cada mudança não siginifica quase nada, pois ela reflete muito defasadamente, mas ainda assim reflete. Porém, a taxa dá estímulo para o industrial'', afirma a economista e professora da Universidade Norte do Paraná (Unopar), Fernanda Esperidião.
O efeito é simples, explica a economista: quando o índice está baixo a economia tem um movimento positivo, o empresário anima-se em produzir, pois vai conseguir dinheiro mais barato através de empréstimos bancários para investir na indústria, e então poderá colocar o produto mais barato no mercado e o consumidor terá mais facilidade para comprar. ''O problema é que o efeito tem sido o contrário'', lamenta.
E por que então o Banco Central (BC) mantém o índice nas ''alturas''? ''Os economistas e analistas do Copom acreditam que, restringindo o crédito, se dificulta o consumo, com isso os preços baixam, e assim não temos inflação'', frisa o economista e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Renato Pianowski.
Desde o começo da administração do presidente Lula, acentua ele, o objetivo é segurar a inflação a qualquer custo para equilibrar a economia. Por isso, especialistas consideram o atual governo conservador em relação à política monetária. A expectativa de inflação para o ano inteiro é de 5% a 6%, segundo Pianowski
O problema, conforme lembra o economista, é que o País tem registrado deflação há quatro meses, com o Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M) fechando períodos negativos. ''E o que é a deflação? São os preços na média se movimentando para baixo. Mas se não houve uma superoferta de algum produto como alface, milho, arroz ou coisa parecida, significa que os comerciantes e fabricantes estão tendo dificuldades em colocar o produto no mercado e estão baixando os preços. Significa principalmente que eles não estão vendendo e nós estamos em um processo recessivo'', descreve.
E, se estão vendendo pouco, como explica Pianoviski, é porque as pessoas estão sem dinheiro. Nesse ponto está o problema para o consumidor: a Selic é uma taxa referencial, que serve de base para os bancos, as financeiras e lojas que fazem crediário montarem seus juros. ''Ou seja, taxa básica alta, outros índices também altos. E a questão é que como a Selic chega muito defasadamente à população, uma redução do juro agora só irá refletir depois de uns três ou quatro meses no nosso bolso'', avalia.

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