Para economistas, o Plano Real foi mal administrado
Carmem Murara
O Plano Real completa hoje cinco anos carregando os louros de ter se tornado o mais longo programa de estabilização e queda da inflação, mas com o ônus de ter trazido para o País os maiores índices de desemprego e recessão. A legião de trabalhadores desempregados chega a 10 milhões, o que representa 80% de toda a população paranaense. O desemprego foi apontado ontem por economistas do Estado como o principal saldo negativo da estabilização da moeda.
Todos foram unânimes em defender o Real pelo fato de ele ter acabado com o histórico período de inflação brasileira, mas sem exceção criticaram a forma como o governo federal conduziu a economia nacional. Houve uma série de equívocos que trouxe a estagnação da economia. O governo até foi bem intencionado, mas o plano foi mal administrado, afirmou ontem o economista Juarez Varallo Pont. Entre os erros do governo, ele aponta o engessamento do câmbio, as altas taxas de juros e o adiamento da reforma tributária.
O economista ressaltou ainda que o descompasso econômico foi agravado com a influência política sobre o Plano Real. Quando foi lançado em julho de 1994, o País se preparava para eleger, em outubro, o substituto do presidente Itamar Franco. O candidato Fernando Henrique Cardoso - considerado hoje o pai do Real - foi eleito com facilidade. O país elegeu uma moeda e não um candidato, costumava repetir o candidato derrotado a presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT). No ano passado, houve nova influência política sobre o Real. A desvalorização da moeda foi adiada para após as eleições, garantindo a reeleição sobre o mesmo Lula.
Dos cinco anos do Real, ficam alguns índices e números que comprovam a estagnação do País. O Produto Interno Bruto, que teve um crescimento de 5,9% em 1994, fechou o ano passado com pequeno aumento de 0,15% e deve ser negativo em 1,9% neste ano. A dívida pública, que era de R$ 153,2 bilhões, passou para R$ 470,3 bilhões. O déficit em transações correntes passou de US$ 1,7 bilhão para US$ 32,1 bilhões e os investimenos diretos feitos por grupos estrangeiros saltou de US$ 2,4 bilhões para US$ 31,3 bilhões.
Todos contribuíram direta ou indiretamente para agravar a situação do trabalhador. Um dos números que mais chama a atenção é a taxa de desemprego. Quando o Plano Real surgiu, 5,1% da população economicamente ativa estava desempregada, segundo o IBGE. O mesmo instituto de pesquisa aponta um desemprego médio de 7,8%. O grande prejudicado do Plano Real foi o trabalhador, pela perda do emprego e pela deteriorização do trabalho, afirmou o presidente do Conselho Regional de Economia, Luis Eduardo Sebastiany.
O que houve, no entanto, foi uma redução média no grau de pobreza da população, que é avaliado ao se comparar a evolução do rendimento dos trabalhadores. Em 94, o índice de pobreza era de 39,9%, contra 36% neste ano.
O economista do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), Gilmar Lourenço, avalia que a situação do País confirma a necessidade de pensar no futuro do Real. A ênfase do plano recaiu sobre o controle da inflação às custas da perigosa conjunção entre juros altos, sobrevalorização cambial e falta de uma política fiscal, afirmou. Lourenço disse que um dos maiores erros do governo foi ter adiado a reforma tributária, que era essencial para garantir uma economia equilibrada.
A taxa de juros chegou ao patamar estratosféricos de 122% ao ano, em julho de 94, caindo hoje para 21%. Em países desenvolvidos, a taxa anual gira em torno de 6% a 7%.





