Para Cícera, seria a 'salvação da lavoura'
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domingo, 16 de dezembro de 2001
Benê Bianchi<Br>De Londrina 
Há nove anos o distribuidor de jornais Valdir dos Santos, de Londrina, não sabe o que é chegar ao final do ano e contar com um salário a mais na conta bancária. Ele faz parte da legião de trabalhadores brasileiros sem 13º, que trabalham sem carteira assinada.
Santos é autônomo e confessa que sente falta de um dinheirinho a mais no final do ano e do pagamento do abono de férias. Mas não trocaria a vida que leva hoje pela anterior, quando era funcionário. ''No começo, logo que saí do mercado formal, foi difícil me adaptar com a nova situação. A gente sente falta da segurança de chegar no início do mês e ter o salário, contar com o 13º, férias. Tive momentos de instabilidade, mas hoje a minha situação está melhor'', relata.
Para chegar à atual tranquilidade, Santos teve que aprender a lidar com o orçamento mensal de uma maneira diferente e poupar para garantir as férias. ''Fazendo o orçamento certinho dá para separar um pouco para as férias ou para comprar alguma coisa. É claro que tem mês que não sobra, mas a gente vai levando.''
A quituteira Soraia Campos Tavares já nem pensa em 13º salário. Ela teve emprego com carteira assinada mas há três anos trabalha informalmente, cozinhando tortas doces e salgadas pela manhã e saindo para vender à tarde. O que ganha não é muito, mas Soraia tem planos de crescer na profissão. Seu objetivo é abrir um negócio próprio.
''Consigo me manter com o que ganho e nunca fico fazendo planos para comprar alguma coisa no final do ano. Compro o que preciso no decorrer do ano. Não gosto dessa idéia fixa de ter de consumir só porque é Natal'', comenta.
Já para a vendedora ambulante Maria Cícera Castro Gomes, um 13º salário seria a ''salvação da lavoura''. Há 23 anos ela vende frutas na esquina das ruas Sergipe com São Paulo, no centro de Londrina. ''Eu não tenho nada. Não tenho carteira assinada nem carteira de trabalho eu tenho , não tenho 13º, não tenho salário. Só tenho Deus pra me ajudar'', desabafa Maria Cícera, enquanto atende mais um cliente.
A vendedora sabe bem o que faria se entrasse um dinheirinho extra no final do ano. ''Ia comprar uma cama boa pra mim e outra para o meu filho, que dorme comigo até hoje. Compraria umas roupas e faria uma boa compra no supermercado'', sonha. Mas, como o dinheiro não virá, ela diz que se contentaria em aumentar um pouco as vendas do final de ano para poder pagar a conta da mercearia. ''Mas nem com isso dá para contar. Depois que começaram a fazer a Feira do Produtor no Calçadão, nossas vendas aqui caíram'', conta.
Maria Cícera diz que ganha pouco mais de R$ 100,00 por mês, trabalhando das 8 às 19 horas todos os dias. Poupar é um outro sonho que ela vê cada vez mais distante. ''Mal dá pra comer. Guardar o quê?''


