A queda do dólar dos últimos dias pode ser explicada por diversos fatores que não se resumem ao simples descolamento da economia brasileira da Argentina, considerando-se que o processo de absorção da crise no país vizinho já faz parte do cotidiano do mercado financeiro há alguns meses. Segundo fontes do governo consultadas pela Agência Estado, a nova percepção que está se formando entre os agentes econômicos está ancorada em fatos concretos que mostram solidez da economia.
Alguns desses fatores podem ser listados: os sinais de recuperação da balança comercial; o resultado das medidas pontuais do Banco Central para conter a escalada do dólar; a constatação das empresas de que a operações de hedge (proteção) com o dólar a R$ 2,80 já representavam prejuízo financeiro; o próprio descolamento da Argentina; e os bons resultados das contas internas e externas. Além, disso, os atentados terroristas nos Estados Unidos, ao contrário do que se previa inicialmente, não estancaram o ingresso de investimentos diretos no Brasil, que somaram mais de US$ 2,4 bilhões nos últimos dois meses.(Leia mais na página 1 deste Caderno).
Esta melhora de percepção se desdobrou em decisões dos agentes econômicos. O governo calcula, por exemplo, que empresas exportadoras mantinham em estoque cerca de US$ 5 bilhões. Esse comportamento é justificável num cenário de cotações em alta, quando se espera o melhor momento para o fechamento dos negócios. Agora, porém, a situação de inverteu, e esse dinheiro começa a ser desovado.
No quadro de fatores que explicam a queda do dólar também pode ser incluído o comportamento da inflação. A decomposição dos índices, segundo as fontes, evidencia a ausência de novas e incontroláveis pressões sobre os preços. ''Não há descontrole da inflação, apesar de o índice se manter acima da meta prevista para este ano'', garantem as fontes, segundo as quais cerca de 50% da alta da inflação resulta do impacto dos reajustes das tarifas públicas.
Além disso, o recuo que vem sendo observado na cotação do petróleo indica que, mantidas as condições atuais, o preço dos combustíveis pode recuar no futuro próximo, não se descartando a hipótese de uma queda de cerca de 10% da gasolina.
A afirmação de que não existem pressões inflacionárias futuras não deve, no entanto, alimentar as previsões de que, certamente, o Copom reduzirá as taxas de juros na reunião dos próximos dias 20 e 21. ''O Copom faz a análise no dia olhando sempre para frente e tendo como referência a meta de inflação'', afirmam as fontes do governo.
A mudança de percepção do mercado pode ser explicada, ainda, pelo comportamento de um fator que é apontado sempre como elemento de risco da economia brasileira: o financiamento das contas externas. Em declarações recentes, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, tem questionado os que apontam a chamada vulnerabilidade externa brasileira, lembrando que o País conseguiu atravessar as sucessivas crises que abalaram a economia neste ano.

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