O Brasil tem hoje fundamentos econômicos mais fortes para enfrentar uma eventual quebra da Argentina do que na ocasião da crise russa, em 1998, que levou à desvalorização forçada do real no início do ano seguinte. Ao mesmo tempo, o risco político e a elevada relação dívida/PIB são fatores sobre os quais há maiores incertezas do que naquele período.
Essa é a síntese das opiniões colhidas ontem pela Agência Estado com analistas e economistas do mercado financeiro. Neste cenário comparativo, o ponto positivo de maior destaque são os ganhos fiscais obtidos nos últimos três anos. Os economistas são unânimes em destacar os expressivos superávits primários obtidos a partir do ajuste iniciado em 1999, em que pese o fato de sua origem estar mais no aumento de impostos do que no corte de gastos.
‘‘Sem dúvida, a melhora de fundamento mais expressiva está na área fiscal. O fato de estarmos no meio do ano com um superávit quase na meta anual de R$ 29,6 bilhões nos dá uma boa tranquilidade sobre o assunto’’, comenta o economista do Lloyds TSB, Odair Abate.
Os analistas lembram ainda que houve um importante ganho de instrumentos para consolidar esse cenário fiscal positivo, particularmente a implementação da Lei de Responsabilidade Fiscal.
As mudanças nos regimes de política monetária e cambial implementadas na gestão Armínio Fraga do BC também são citadas como ponto de destaque em termos de melhora de fundamentos da economia doméstica nestes últimos três anos.
Apesar do impacto negativo do racionamento de energia elétrica sobre a produção, o nível de atividade econômica no País também é apontado como um fundamento onde houve melhora na comparação com o período pós-crise russa. ‘‘Apesar de as empresas estarem tirando o pé do acelerador para seus planos de investimento, o País não está entrando numa rota de recessão como naquela época, onde nem sequer havia horizonte de médio e longo prazos para essa programação. Hoje esse horizonte existe’’, comenta o diretor de Pesquisa Econômica do BBV Banco, Octavio de Barros.
Além disso, os economistas também destacam a falta de necessidade – sempre ressaltada pelo presidente e diretores do BC – de capital especulativo para o País fechar suas contas externas. Odair Abate, no entanto, alerta para o fato de que, ainda que em melhor situação que a de 1998, as contas externas estão em situação aquém da esperada para este ano.
O cenário externo é um dos fundamentos que divide as opiniões do mercado. Há destaque para o fato de que em 1998/1999 houve uma retração do fluxo de capitais para os países emergentes em razão de crises localizadas nestes países e que, hoje, essa realidade ganhou novo tempero: a expectativa negativa com relação ao desempenho de economias desenvolvidas, especialmente a norte-americana, cujos efeitos sobre a economia global acabam sendo bem mais intensos.
Apesar de a capacidade de diferenciação do mercado ficar mais refinada a cada crise que passa, parte dos analistas também cita o fato de o epicentro da turbulência ser a Argentina, e não a Rússia, como ponto negativo para o Brasil na comparação com a crise de 1998. Não apenas por sua proximidade, mas também pela exposição bem maior de grandes bancos globais naquele país do que na Rússia, onde os bancos alemães foram os maiores prejudicados com a moratória.

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