Para analistas, Brasil saiu fortalecido da crise
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de agosto de 2009
Fernando Dantas<br>Agência Estado 
Rio - O Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual.
''O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instilar confiança'', diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Para Jim O'Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Brics (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), ''o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos''.
O crescimento de importância do Brasil e de outras economias emergentes é uma das características do novo mundo surgido com a crise econômica.
Affonso Celso Pastore, consultor e ex-presidente do BC, observa que a recessão no Brasil foi curta, de apenas dois trimestres, comparada a quatro em países como EUA, Alemanha e França.
O economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, nota que há os países que estão saindo da recessão no segundo trimestre e os que estão saindo no terceiro - o Brasil está entre os primeiros, junto com várias nações asiáticas. ''Mesmo no primeiro trimestre, se olhar mês contra mês, há números fortes de crescimento no Brasil'', acrescenta.
Para Goldfajn, a crise foi um teste de estresse para diversos países no mundo, no qual alguns passaram, outros não, alguns tiveram nota boa e outros nota ruim. ''Acho que o Brasil tirou nota boa, e agora está todo mundo olhando e dizendo 'esse cara é bom'.''
Uma das principais razões para o sucesso do Brasil em enfrentar a crise, segundo Pastore, é que ela pegou o País com o regime macroeconômico adequado - câmbio flutuante, bom nível de reservas, inflação controlada, superávit primário, dívida pública desdolarizada e caindo como proporção do PIB.
Essa solidez combinou-se com o sistema financeiro capitalizado, pouco alavancado, que estava proibido pela regulação de operar com os ativos perigosos, como os títulos estruturados no mercado americano de hipotecas subprime.
''Uma das lições da crise é que países que tinham uma abordagem equilibrada da regulação do mercado financeiro, como o Brasil, Austrália e Canadá, não tiveram crise bancária'', diz O'Neill.
A política anticíclica, baseada em corte de impostos e ampliação de gastos públicos, também ajudou, embora esta segunda parte seja criticada pelos efeitos de médio prazo. Para Pastore, os aumentos do funcionalismo e do Bolsa-Família tiveram efeitos contracíclicos, mas ''por coincidência'', já que foram decididos antes da crise. ''O defeito é que, se fosse política contracíclica mesmo, teria de expandir gastos transitórios, e não permanentes.''
Para a maioria dos economistas, o aumento dos gastos públicos correntes reduz o espaço do investimento e impede que o Brasil cresça a um ritmo ainda mais forte do que os 4% a 5% previstos.
De qualquer forma, o sucesso diante da crise jogou o Brasil definitivamente no radar dos investidores. ''À medida que continuarmos a crescer mais que o mundo, é natural que o País receba um aporte muito grande de investimentos estrangeiros diretos'', diz Pastore, acrescentando que eles aumentaram na turbulência, mesmo com recessão e queda de lucros nos países que sediam as empresas que investem no Brasil.
A contrapartida dos fluxos de capital é o câmbio valorizado e o déficit em conta corrente, o que significa que o mundo está financiando o Brasil para consumir muito (o que implica poupar pouco) e investir ao mesmo tempo. Segundo Goldfajn, os brasileiros serão um dos povos convocados, junto com os asiáticos, a preencher o espaço deixado pelo fim da exuberância do consumidor americano, atolado em dívidas e necessitado de reconstruir seu patrimônio.


