Pandemia reduz poder de compra dos londrinenses, aponta estudo

Tendência de retração nacional se repete em Londrina, com projeção de queda de R$ 100 milhões no potencial de consumo da população; pesquisa também indica empobrecimento das famílias

Simoni Saris - Grupo Folha
Simoni Saris - Grupo Folha

A pandemia do novo coronavírus reduziu a capacidade de consumo das famílias londrinenses.  Estudo do IPC Maps 2020 aponta que o município acompanha tendência nacional de retração, com expectativa de queda de 1,14% em relação a 2019, o que corresponde a R$ 100 milhões. As famílias menos abastadas são as mais afetadas. Entre a população da classe C, o poder de compra caiu quase 20% na comparação com o ano anterior. O estudo mostra também a diminuição no número de empresas de um ano para outro, ocorrência observada pela primeira vez desde 1995, quando o instituto iniciou o cálculo dos índices de potencial de consumo.


Pandemia reduz poder de compra dos londrinenses, aponta estudo
 


“Londrina é bem a cara da crise”, resumiu o responsável pelo IPC Maps, Marcos Pazzini. No estudo publicado em 2019, o instituto indicava uma previsão de gastos dos londrinenses de R$ 16,4 bilhões. Neste ano, em decorrência da crise sanitária, o potencial caiu para R$ 16,3 bilhões. O consumo depende de renda e, em geral, a renda depende da geração de empregos. Com a retração do mercado de trabalho formal em 2020, caíram as ofertas de emprego e, por consequência, o poder aquisitivo das famílias, em especial nas classes mais baixas.




No estudo realizado em 2019, a classe C detinha o maior potencial de consumo, com R$ 6,546 bilhões. Neste ano, possivelmente por efeito da queda na geração de emprego e renda, o número de domicílios neste estrato social cresceu mais de 2%, mas o poder de compra dessas famílias baixou 19,58%, para R$ 5,264 bilhões. Em contrapartida, a classe B assumiu a liderança, com potencial de consumo calculado em R$ 7,175 bilhões em 2020 mesmo com a redução de 1,24% no número de domicílios. “As empresas, neste ano, deverão focar mais as classes A e B do que a Classe C. As classes C, D e E devem sofrer mais com a crise. O governo do Paraná e a prefeitura têm que dar uma atenção especial para essa população”, analisou Pazzini.


“O crescimento nas classes B2 e C é uma ‘pobrificação’ das pessoas, as jogando para estratos inferiores. Em um cenário onde se analisa o consumo, mostra que a produção tem que atender a essa categoria de pessoas que perderam renda e precisam continuar consumindo”, avaliou o economista Marcos Rambalducci.


Empresas ativas

O município também registrou queda de 15,5% no número de empresas ativas em 2020 na comparação com o ano anterior. Foram fechados 14.087 CNPJs. Na contagem realizada em abril de 2019, Londrina tinha 90.630 unidades empresariais de todas as naturezas jurídicas. Em igual mês deste ano, 76.543 empresas mantinham as operações. O maior recuo foi observado no comércio, um dos principais setores que movem a economia local. O setor perdeu, em 2020, 8.593 empresas. Na indústria, foram fechadas 2.751 unidades e, em serviços, 2.744. Desde 1995, quando o IPC Maps iniciou o cálculo dos índices de potencial de consumo, não havia redução no número de empresas em atividade.


Pazzini avalia que o comércio de rua já vinha enfrentando a concorrência dos shoppings e agora, com a pandemia, não conseguiu se adaptar ao esquema de delivery ou e-commerce e fechou as portas. Mas o especialista atribui o encerramento das atividades dessas empresas ao “fenômeno da pejotização”. “Nesse momento, é um pouquinho de acerto de contas. Pessoas abriram MEIs só para recolher menos impostos. Essas empresas não geravam emprego, não eram um sinal positivo da economia. Era só para pagar menos tributos.”


Participação

Apesar dos indicadores negativos que apontam queda em valores monetários, Pazzini destaca que a participação dos londrinenses no consumo brasileiro aumentou. No ano passado, a cada R$ 100 gastos no Brasil, R$ 0,35 foram desembolsados por consumidores do município. Neste ano, esse valor subiu para R$ 0,37. Mesmo com a elevação, a colocação de Londrina nos rankings nacional e estadual não foi alterada. Entre todas as cidades brasileiras, o município ocupa o 37º lugar em potencial de consumo. No Paraná, é a segunda colocada, atrás apenas de Curitiba.


Os dados do IPC Maps não consideram a inflação e levam em conta apenas os acréscimos ano a ano. Por essa razão, Rambalducci acredita que os resultados apresentados no estudo sejam “otimistas”. “Quando a gente pega (os dados) de 2018 para 2019 e de 2019 para 2020, a gente percebe um viés otimista. De qualquer forma, o estudo leva em consideração a queda de 5% a 6% do PIB (Produto Interno Bruto), o que é um dado bem realista”, avaliou.


A migração do poder de consumo das capitais para o interior também reflete a realidade, segundo o economista, que aponta o aumento da participação dos londrinenses no consumo nacional ano a ano, saltando de R$ 0,31 em 2018 para R$ 0,36 em 2020. “Esses dados podem balizar as decisões macroeconômicas por parte de empresários, empreendedores e gestores. As expectativas são desafiadoras para os próximos meses.”


Sobre o fechamento de empresas, Rambalducci lembra que a abertura de empresas bate recordes ano a ano, especialmente as MEIs. “Só em abril, Londrina perdeu mais de 3,5 mil postos formais de trabalho. As pessoas não estão conseguindo mais se colocar no mercado de trabalho e precisam sobreviver, então migram para abrir uma empresa. O que a gente percebe é um aumento e não uma diminuição”, afirmou o economista. “A gente vai ter redução de empresas que geravam empregos, como restaurantes e agências de turismo.”


Poder de consumo dos brasileiros irá retroceder uma década

Os dados nacionais do IPC Maps 2020 mostram que o poder de consumo das famílias brasileiras retornará aos patamares de 2010 e 2012. A projeção é uma movimentação de cerca de R$ 4,465 trilhões na economia, retração de 5,39% em relação a 2019, e uma taxa negativa do PIB (Produto Interno Bruto) de 5,89%.  


“O mundo todo vai voltar um ou dois anos para trás. Mas nós tivemos em 2015 uma retração do consumo de 4%. Em 2016, a retração foi de 4,2%. Se considerarmos os valores do consumo de 2010 e a variação real de 2011 até 2020, sem calcular a inflação do período e com o crescimento negativo de 5,39% neste ano, vamos chegar a valores de 2010, 2012. Vamos regredir pelo menos oito anos”, disse o responsável pelo IPC Maps, Marcos Pazzini. Após a crise de 2016, destacou ele, o crescimento do PIB não passou de 1%.




No início de março, antes do início da pandemia no país, a previsão para o PIB em 2020 era de alta de 2,17%, conforme o Boletim Focus do Banco Central, com projeção de R$ 4,9 trilhões em consumo, superando os R$ 4,7 trilhões registrados no ano passado.

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