Imagem ilustrativa da imagem Pandemia eleva em 300% preço de frete da China

A pandemia do novo coronavírus elevou o custo das importações vindas da China. Desde o início do ano passado, o preço do frete de contêineres originários do país asiático com destino ao Brasil subiu 300%, saltando de US$ 2,5 mil para US$ 10 mil na Região Norte. Em moeda brasileira, o preço passou de R$ 12,9 mil para R$ 51,9 mil, segundo levantamento da empresa de transportes ES Logistics. Nos portos de Santos, o mais movimentado do País, e de Paranaguá, o valor gira em torno de US$ 7,3 mil, mas a perspectiva é que ultrapasse os cinco dígitos em breve. Os reajustes já afetam as importações brasileiras e inviabilizam negócios.

Os Estados Unidos são hoje o maior mercado consumidor dos produtos chineses e, com a pandemia, que reduziu a cadeia de suprimentos, os contêineres enviados aos importadores norte-americanos estão demorando mais para retornar à China. A falta de contêineres, porém, é apenas um dos fatores que causaram a alta no preço dos fretes. O reajuste também foi impulsionado pela demanda reprimida desencadeada pela queda no consumo ocorrida entre os meses de março a junho. Demanda essa que ainda não foi totalmente atendida. “Essas são as duas maiores causas (para a alta do preço dos fretes), mas a impressão que a gente tem é que houve uma mudança no padrão de consumo. Antigamente, o brasileiro parava de importar quando o dólar chegava a R$ 5,10. Agora, o dólar chegou a R$ 5,60 e as importações não caíram”, observou o diretor da ES Logistics, Fabiano Ardigó. “O empresário parece que vai repassar esse custo para o consumidor final.”

Desde março, a alta foi gradual, de cerca de US$ 1 mil ao mês. Além dos efeitos da pandemia, que vive agora uma segunda onda, outra variante deve contribuir para elevar o preço do frete chinês, fazendo os valores em dólar ultrapassarem os cinco dígitos. Tradicionalmente, o ano novo chinês é uma época de majoração dos preços. Os importadores já esperam esse reajuste sazonal, mas neste ano as previsões apontam para um pico de US$ 10 mil por contêiner. Em 2021, o ano novo chinês acontece em 12 de fevereiro e o país praticamente deve parar até o dia 20, recesso que inclui a movimentação nos portos. “No período que antecede o ano novo, há um acúmulo de carga. Depois disso, em março, deve baixar um pouco o valor do frete”, disse a sócia-diretora da empresa Arquitetizze, em Pinhais (PR), Julia Valle.

Menos rotas

Diretora do setor de Compras Internacionais e Financeiro da Empalux, em Curitiba, Raquel Rossi destacou que é difícil driblar os reajustes do preço do frete chinês e que a alta precisa ser absorvida pela empresa. “É injusto não ter muita ação sobre esses valores de frete, mas além do frete alto, tem a falta de espaço no navio. O número de rotas diminuiu muito. A gente acredita que o pessoal dos navios está se aproveitando desse momento para ganhar.”

O último frete considerado dentro dos padrões normais contratado pela empresa, em 9 de dezembro de 2019, foi de US$ 1.285,08 por um contêiner de 40’NOR. Hoje, o valor pago para o mesmo tipo de equipamento, com a mesma origem e destino, é de aproximadamente US$ 7,7 mil. E especialistas estimam que esse valor chegará a US$ 10 mil. Se as previsões se confirmarem, os importadores terão de absorver uma alta acumulada de mais de 600% no período de um ano.

Gestora de Mercado Internacional da Empalux, Elizabet Solar lamenta que mesmo pagando um custo tão alto para despachar a mercadoria não há garantias de embarque por conta da falta de contêineres. “Armadores não estão repondo contêineres como o mercado espera, pois mesmo com a falta deles, todas as saídas estão com os navios 100% cheios. Dessa forma, na perspectiva deles, não há necessidade de reposição. Só haverá algum movimento da parte deles quando o navio sair com espaços disponíveis devido à falta de equipamentos. Logo, segundo as notícias referentes ao mercado, a estimativa é que não haverá estabilização dessas variáveis até o segundo semestre de 2021.”

Variação do dólar

Além dos desafios impostos pelo frete alto e da indisponibilidade de carregamento dos contêineres, os importadores ainda têm de lidar com a variação da taxa do dólar, um obstáculo a mais para quem trabalhar com planejamentos financeiros a médio e longo prazo. Outro gargalo decorrente da pandemia é a falta de matéria-prima nas indústrias. “Toda essa preocupação e instabilidade nos valores e nos carregamentos dos nossos contêineres afetam diretamente o nosso planejamento e as entregas dos produtos aos nossos clientes. Somos forçados a ter um planejamento mais arrojado, de pelo menos oito meses, além de buscarmos outras alternativas para tentarmos manter nosso fluxo de caixa mais saudável”, avaliou Solar.

“Fechei um pedido com um fornecedor em dezembro e ele me deu prazo de 120 dias. Antes, eram 30 dias. Estou em busca de outros mercados agora, como a Índia e a Coreia. Mas a China eu conheço bem, já fui para lá várias vezes. Eu não posso migrar para outros mercados sem conhecer”, destacou Valle.

Enquanto a alta permanecer, Ardigó acredita que alguns importadores deverão suspender as compras externas enquanto outros, como fez Valle, já começaram a prospectar novos mercados. No entanto, há setores bem aquecidos que seguem com as transações comerciais com a China dentro da normalidade. “A indústria têxtil fashion continua importando como se nada estivesse acontecendo. Painéis solares, também, assim como produtos da área médica, luvas, máscaras. São setores superaquecidos que acabam distorcendo o mercado”, avaliou. “Mas todos estão aguardando para ver o que vai acontecer depois do feriado (do ano novo chinês). A nossa expectativa é que não volte ao nível de 2020, deve ficar alto.”

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