Pandemia derruba faturamento de cervejarias em 80%

Produção artesanal no Paraná baixou de 799 mil litros para 153 mil litros mensais, aponta pesquisa realizada pela Procerva; empresas tentam se adaptar à crise aumentando canais de venda direta ao consumidor

Simoni Saris - Grupo Folha
Simoni Saris - Grupo Folha

O Brasil ocupa o posto de terceiro maior produtor mundial de cervejas e o consumo anual da bebida é de 14 bilhões de litros. Desse total, cerca de 2% vêm das cervejarias artesanais, o que correspondem a algo em torno de 280 milhões de litros. Nos últimos 12 anos, o número de cervejarias no país subiu de cem para 1.209, das quais 1.150 produzem a bebida artesanalmente, segundo registros do Ministério da Agricultura. O segmento, um dos mais promissores, vinha experimentando crescimento nos resultados ano a ano e a expectativa para 2020 eram as melhores, com alta da produção e, consequentemente, do faturamento. Mas a pandemia do novo coronavírus afetou drasticamente os produtores de cerveja e os pequenos foram os primeiros a sentir os impactos.

No Paraná, onde há 131 cervejarias artesanais, 85% sofreram algum tipo de mudança para se adequar à nova realidade imposta pela crise sanitária, segundo apontou uma pesquisa realizada pela Procerva (Associação das Microcervejarias do Paraná) entre os dias 18 e 22 de maio. O levantamento ouviu 38 cervejarias e 72% delas apontaram queda de pelo menos 80% no faturamento na comparação com meses anteriores à pandemia. A soma da produção média dessas indústrias caiu de 799 mil litros mensais para 153 mil litros, redução de 80%.  



O estudo apontou ainda que apenas 13% das cervejarias contavam com reservas financeiras para enfrentar alguma eventualidade. Outras 33% estavam em processo de investimento, 20% funcionavam com seu caixa estável e 34% operavam com dificuldade no caixa. Para compensar a queda no faturamento, 45% realizaram empréstimos e outros 11% pretendem recorrer a financiamentos, mas 59% das cervejarias ouvidas não conseguem realizar nenhum empréstimo ou terá acesso a novos financiamentos. Apesar de o governo federal ter liberado uma linha de crédito específica para microempresas, 77% das cervejarias não conseguiram os recursos em razão das diversas cláusulas e restrições contratuais.

“Estamos de mãos atadas porque os maiores clientes das cervejarias artesanais eram bares e restaurantes. Estamos tentando investir em delivery para o consumidor final, abrindo sites, fazendo coisas de modo a girar a roda enquanto as coisas não melhoram. Mas o nosso grande foco são os bares e restaurantes”, disse o diretor de Marketing da Procerva, Murilo Marecki Foltran. Além da dificuldade de acesso a crédito, ele se queixa da disparidade de incentivos fiscais entre as grandes e as pequenas cervejarias. “A gente emprega muito mais por litro produzido do que as grandes cervejarias, que são bem mais automatizadas”, destacou.

Presidente da Abracerva (Associação Brasileira de Cerveja Artesanal) e presidente da Câmara Setorial da Cerveja, Carlo Lapolli também ressalta a capacidade de absorção de mão de obra do segmento das cervejarias artesanais. Segundo ele, 30% da mão de obra da indústria estão com as cervejarias e, nos últimos três anos, 80% dos novos empregos no setor de cervejas foram gerados pelas produtoras artesanais. “O setor tem uma responsabilidade social muito grande. Mais de 500 municípios brasileiros têm uma cervejaria instalada, o que ajuda na movimentação da economia local. Deve-se ter um cuidado muito grande com essas empresas, que precisam criar raízes para sobreviver a crises. A pesquisa da Procerva é um recorte da situação do Brasil como um todo.”

Criada em outubro do ano passado em Brasília (DF), a Câmara Setorial da Cerveja surgiu com a finalidade de discutir os problemas do setor, buscar formas mais eficazes de fomentar a indústria cervejeira, fortalecer o mercado das cervejas artesanais, além de movimentar setores da indústria e da agricultura ligados à produção de insumos. Neste momento de crise, a Câmara tem se empenhado em discutir medidas que auxiliem as empresas a sobreviverem. “Entregamos um documento ao Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) com mais de 16 itens para beneficiar o setor. Alguns pontos foram atendidos, mas a maioria, não”, lamentou Lapolli.

A questão do crédito, no entanto, é apontada como a mais urgente. “Quando se fala da recuperação das empresas, a injeção de dinheiro é a medida mais eficaz, mas a gente tem pontuado que, infelizmente, o volume de recursos destinados é muito baixo. A gente fala de um programa de R$ 3 bilhões para pequenas e médias empresas enquanto o governo federal dá incentivo fiscal de R$ 14 bilhões para as grandes indústrias de refrigerantes”, ressaltou Lapolli.    

“Falamos com o governo estadual para tentar conseguir um benefício fiscal para essa época e eles até deram, mas publicaram um decreto muito dúbio. Pedimos que a Secretaria de Estado da Fazenda explique como é para ser, mas cada um diz uma coisa. Há quase um mês está parado. O faturamento caiu muito e as contas não param de chegar. Os auxílios têm que vir rápido senão acaba sendo protestado no Serasa e aí não consegue mesmo os recursos”, disse Foltran.


Cervejarias se adaptam para vender diretamente ao consumidor final

Lucas Varéa: “Essas vendas não são para faturar, são para sobreviver"
Lucas Varéa: “Essas vendas não são para faturar, são para sobreviver" | Gustavo Carneiro
 



Impulsionar a venda de cerveja diretamente ao consumidor final foi a alternativa que as cervejarias encontraram para manterem ao menos parte do faturamento durante o período mais crítico da pandemia. Seja por meio do e-commerce, aplicativos de entrega ou inserção do produto em supermercados, as empresas tentam formas de contornar a crise, chegando diretamente ao consumidor final.

A Cervejaria Amadeus tinha nos eventos a principal fonte de divulgação da marca. Com a suspensão do calendário de festas e shows, os projetos foram inviabilizados. A distribuição, feita por meio de bares e restaurantes, também foi fortemente afetada. “Março e abril foi um período bem complicado, de readaptação”, comentou o sócio e cervejeiro responsável da Amadeus e membro do Núcleo de Cervejarias Artesanais Pé Vermelho, da Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina), Lucas Varéa.

A solução encontrada pela Amadeus foi partir para o e-commerce, mas a empresa teve de se adequar a esse novo canal de vendas. “Não tem mais a ideia de ‘gambiarra on-line’. A gente não pode ter um site mais ou menos”, disse Varéa. As vendas on-line, via telefone e aplicativos de entrega têm garantido a manutenção da empresa, mas a cervejaria ainda faz investimentos na estrutura de atendimento remoto e na configuração do site para atender melhor os clientes. “Essas vendas não são para faturar, são para sobreviver.”

No ano passado, a Amadeus triplicou o faturamento em relação a 2018 e a expectativa para este ano era manter a faixa de crescimento. Agora, as metas foram recalculadas. Bares e restaurantes que vendiam os produtos da marca, ao fecharem as portas, não puderam honrar os pagamentos e foi preciso renegociar prazos.

A empresa também teve que demitir funcionários e 95% deles tiveram redução de jornada e de salários. “Tivemos que remanejar toda a estrutura. A ideia é não deixar ninguém na mão. A redução (de jornada) foi interessante para poder trabalhar”, disse Varéa.

Reduzir a jornada e os salários também foi o meio que a Morcelli Cervejaria encontrou para evitar os desligamentos. Um contrato de experiência deixou de ser renovado, mas todo o quadro original de funcionários foi mantido.  

Segundo pesquisa realizada pela Procerva (Associação das Microcervejarias do Paraná), das 38 cervejarias ouvidas, 55% tinham entre um e cinco funcionários em fevereiro de 2020, antes da pandemia, totalizando 312 trabalhadores. Entre as empresas pesquisadas, 53% demitiram pessoal, 29% fizeram acordos de suspensão de salários, com a interrupção do pagamento dos vencimentos de 52 trabalhadores. Outros 39% fizeram acordos de redução de jornada e de salários, totalizando 113 funcionários nessa condição.  

Assim como a Amadeus, a Morcelli vinha apresentando resultados crescentes ano a ano, variando de 8% a 12%. “Iniciamos 2020 muito otimistas. As vendas estavam satisfatórias e esperávamos fechar dentro de nossa média anual de crescimento próximo do limite máximo. Porém, com a notícia da pandemia, as vendas reduziram consideravelmente e tivemos semanas com vendas a zero. Todos os eventos agendados foram cancelados e os pontos fixos (de venda), fechados”, contou o diretor da Morcelli Cervejaria, Tiago Morcelli.

Com faturamento reduzido a quase zero, a empresa teve que se reinventar. “Criamos o Growler Day, aos sábados, quando os clientes vêm até a fábrica e compram o chope no sistema drive thru ou take away e também cadastramos a cervejaria no iFood. Agora, o principal, desengavetamos um antigo projeto de envase de garrafas de 500 ml e 600 ml. Meu irmão, Juliano, responsável pela produção, está no ajuste fino e os nossos esforços são para o lançamento em meados de julho.” Para conseguir capital de giro, a empresa recorreu a um empréstimo.

 

 

 




Como você avalia o conteúdo que acabou ler?

Pouco satisfeito
Satisfeito
Muito satisfeito

Tudo sobre:

Últimas notícias

Continue lendo