Países em desenvolvimento crescem menos
Agência Folha
Do Rio de Janeiro
Pela primeira vez em dez anos os países em desenvolvimento, entre os quais o Brasil, tiveram um crescimento menor do que os países ricos. Os dados são de 1998 e foram divulgados ontem, no relatório anual da Unctad, órgão da ONU que cuida de comércio e desenvolvimento.
As exceções marcantes desse menor crescimento, diz a Unctad, são a China e a Índia. Os dois países resistiram à tentação de perseguir uma prematura liberalização comercial e uma rápida integração ao sistema financeiro internacional. Todos os demais países em desenvolvimento tiveram reduções em seu crescimento e ainda sofrem os efeitos das crises financeiras que abalaram o mundo a russa, em 1998, e a do Sudeste Asiático, em 1997.
O crescimento estimado para China e Índia em 1998, segundo a Unctad, é de 7,8% e 5,8%, respectivamente, contra um resultado próximo a zero para o Brasil projeção já confirmada pelo IBGE.
Segundo dados estimados pela Unctad, as economias mais ricas do mundo cresceram em média 2,2% em 1998, contra 1,8% das consideradas em desenvolvimento. Excluindo a China a situação piora, e o crescimento dos menos ricos cai para 0,7%.
Isso é grave, porque o sentido do desenvolvimento é diminuir a distância entre mais ricos e mais pobres. Assim, esse abismo não vai cessar de se aprofundar, disse o secretário-geral da Unctad, o embaixador Rubens Ricúpero. O crescimento da economia mundial esperado para este ano (2%) repete o resultado do ano passado e é insuficiente para reduzir o desemprego mundial, segundo ele.
Ricúpero diz que é dos países ricos a responsabilidade de trazer mais justiça ao que chamou de um mercado internacional extremamente desequilibrado para os países em desenvolvimento. A responsabilidade é do mundo industrializado, que pode reciclar seus excedentes de comércio para estimular a economia desses países. As liberalizações comerciais conseguidas até agora só têm beneficiado áreas de interesse dos industrializados, segundo Ricúpero, estimulando a transferência de renda dos mais pobres para os mais ricos.
Prova de que a globalização tem trazido efeitos nocivos para as economias em desenvolvimento, segundo a Unctad, é o fato de a média de déficit comercial em relação ao PIB desses países nos anos 90 estar 3% maior do que a média dos anos 70, período pré-reformas liberalizantes. Junto com a deterioração do déficit está um crescimento do PIB, em média, dois pontos percentuais menor nesta década. Temos o pior dos dois mundos, diz Ricúpero. Para ele, as próximas negociações do comércio internacional têm que favorecer os países mais pobres. Não estamos pedindo caridade, e sim, justiça.Órgão da ONU que cuida do comércio confirma dados do Banco Mundial e vê abismo maior entre os ricos e pobres
Arquivo FolhaDESEQUILÍBRIORicúpero: É dos países ricos a responsabilidade de trazer mais justiça ao mercado internacional





