Rio - Apesar do furacão financeiro que se alastrou pelos mercados e fez estragos significativos na economia brasileira nos últimos meses, o País que vai hoje às urnas escolher o novo presidente está mais fortalecido e pronto para retomar a rota de crescimento econômico, na avaliação do
presidente do Banco Central, Armínio Fraga.
Escolhido como um dos coordenadores da equipe de transição do presidente FHC,
Fraga contestará, durante as discussões com os representantes do presidente eleito, a tese de que ''está tudo errado''.
''Há muito tempo o País não está tão preparado para retomar uma trajetória de crescimento'', afirma. Para isso, é preciso que o presidente eleito assuma com uma agenda clara e uma equipe preparada para atacar o principal problema: a crise de confiança que se abateu sobre o Brasil. Assim, será possível
levar o País à categoria de investimento o que, na prática, significa incluí-lo na lista de economias que as agências de classificação de risco recomendam para os investidores internacionais.
Em entrevista à Agência Estado, Fraga reconhece que a oposição nas últimas semanas teve papel importante na mudança de humor do mercado que se intensificou nos últimos dias e relaciona os temas que deverão estar na mesa de conversas. Ele diz que a negociação do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que garantirá ao próximo presidente o direito de usar US$ 27 bilhões disponíveis para o Brasil, não deverá ser problema.
''O aumento do superávit seria uma medida quantitativa. Existem outras idéias que podem ser incorporadas, por exemplo, uma agenda legislativa'', diz. Fraga critica ainda a tese de que o Brasil pode conviver com um pouco mais de inflação para não sacrificar o crescimento. ''Tolerância com inflação nunca trouxe mais crescimento''.
AE - Quais as pendências deste governo que deverão ser colocadas na mesa, na terça-feira, pela equipe de transição?
Fraga - Pensamos na transição desde maio. Os contatos que fizemos com os candidatos, o trabalho com o FMI de construir uma ponte financeira para dar condições de manejo ao próximo presidente fazem parte disso. O trabalho formal da transição, uma vez definida eleição, vai dar continuidade a isso. Estamos
preparados e vejo isso com naturalidade. Ao chegar fui beneficiado com uma passagem de bastão que foi valiosissima. Pretendo fazer o mesmo com meu sucessor. Passar no detalhe todos os projetos que estão em andamento, todos os problemas que estamos lidando.
AE - Quais são os pontos prioritários que o BC vai indicar?
FRAGA - Continuo convencido de que vivemos hoje uma crise de confiança e tenho feito esforço para consolidar dois pontos. A situação da economia brasileira é bem melhor do que parece. O clima do debate no primeiro turno passou para o povo uma imagem extremamente negativa da nossa situação, que não corresponde à
realidade. A idéia de que está tudo errado não procede. Há muito tempo o País não está tão preparado para retomar uma trajetória de crescimento. Nos confrontamos com uma sequência inacreditável de choques mas a economia está pronta para reagir porque foi feito o ajuste inflacionário, bancário, fiscal, um superávit primário que ocorre num momento de crescimento bem abaixo do
potencial, o ajuste cambial - que foi além da conta nesse momento de tensão, mas deu grande contribuição para o ajuste no balanço de pagamentos - e demos uma guinada fantástica de produtividade. Se no atual ambiente horroroso a economia está crescendo 1,5%, em ambiente normal e superada essa crise de
confiança, vai crescer muito.
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AE - O que fazer para recuperar confiança?
Fraga - Como tem feito a oposição, é preciso sinalizar que uma
base mínima de bom senso e racionalidade será preservada ou, até
melhor, que essa base de boa condução macro será aprofundada.
AE - O que deveria ser preservado ou complementado do governo
FHC?
Fraga - Na área econômica, o que se quer é construir um ambiente
macroeconômico que traga o País para a categoria chamada de
investment grade (onde são recomendados investimentos). É um
ambiente onde há mais segurança, previsibilidade, a taxa de
juros é mais baixa, há mais estímulo à poupança e ao
investimento. Avançamos bastante nessa área mas temos que
avançar bem mais.
AE - Na abertura comercial também?
Fraga - A abertura comercial merece evoluir no contexto de
negociações com a OMC (Organização Mundial do Comércio), Alca e
União Européia. Aprofundar o grau de abertura faz todo sentido.
O País precisa ter economia mais flexível, aumentar sua corrente
de comércio, o que é em última instância um dos pilares para
reduzir a vulnerabilidade. O segundo pilar é a questão do
crédito. Recuperar o crédito do País seria o projeto investment
grade.
AE - E o aumento do funcionalismo público...
Fraga - Sou contra a idéia de um aumento generalizado. Isso deve
ser visto em um contexto mais amplo de uma política de recursos
humanos.
AE - O sr. recomendará que cambio flutuante basta?
Fraga - Estamos vivendo um momento de queda no comércio global e
a Argentina em profunda recessão. O saldo comercial deste ano
resultou da depreciação do câmbio e de outras políticas do
governo.
AE - Se o crescimento for retomado, o superávit comercial será
mantido?
Fraga - O superávit tende a aumentar com essa taxa de câmbio.
Hoje, o investimento estrangeiro direto está correndo num ritmo
superior ao déficit em conta corrente. Se houver recuperação da
confiança, o investimento direto vai crescer e, nesse contexto,
uma desaceleração da queda no déficit em conta corrente não
seria um problema.

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