Da Redação e Sucursais
Sem chance de compensar as perdas que está sofrendo com uma das piores secas dos últimos 50 anos - de julho a dezembro, interrompida por chuvas fracas e localizadas -, os agricultores se irritam com as falsas projeções do governo que insiste em anunciar supersafra (de verão 1999/2000) quando as perdas são acentuadas. Na opinião de cooperativistas e lideranças rurais, o Paraná praticamente não vai colher milho com exceção dos Campos Gerais e parte da região Sul cujo plantio é feito ‘‘no tarde’’. E com relação à soja cooperativistas acham que a perda para algumas regiões e microregiões podem chegar a 40%, embora a média das perdas deva ser bem melhor.
Contudo, os números apontados oficialmente indicam perdas bem menores, talvez porque os técnicos ainda estão a campo.
Mas os agricultores fazem outra observação: as lavouras de soja que estão sendo avaliadas agora apontam que as perdas não terão grande impacto estatístico. Porém, os levantamentos não levam em conta que este é o segundo ou terceiro plantio e isto onera os custos.
‘‘Não sei como o governo pode prever tanta produção se as perdas estão aí para quem quiser ver. O ministro tem que ter os pés no chão e avaliar melhor as estimativas. Isso é coisa de assessor que, para agradar o ministro, fica passando informação otimista, mesmo que para isso tenha que falsear a verdade’’.
O desabafo do agricultor Benedito Moreira da Cruz, sexta-feira, representa o pensamento de grande número de agricultores do Paraná, Mato Gross do Sul, São Paulo e Rio Grande do Sul, estados mais prejudicados pela seca. Dono de uma propriedade bem tecnificada, com plantio direto em soja e milho, no município de Londrina, Benedito mostra como a falta de chuva compromete cada ciclo de crescimento da planta. O filho Ivan, engenheiro agrônomo, explica como o clima compromete a produção de café da safra 2000/2001, a partir do comprometimento das floradas que resulta numa maturação desuniforme e deixa o café mais suscetível à broca, entre outras consequências.
Ressalvando que sua lavoura não foi das mais prejudicadas -comparando com vizinhos que tiveram que gradear e plantar de novo -, Benedito prevê uma produtividade de 60 sacas por alqueire na mesma área que em anos anteriores colheu entre 110 e 120 sacas.
No caso do milho, as lavouras que não receberam chuva suficiente - quase todas - estão emitindo espigas quando a arquitetura da planta não atingiu nem a metade do seu crescimento.
‘‘É o desenvolvimento vegetativo. A fisiologia da planta quando chega naquela fase ela emite floração e frutos, mesmo que não tenha se desenvolvido o suficiente. É claro que a produtividade está comprometida’’ - explica o agrônomo Ivan da Cruz.
A realidade de Benedito é a realidade da maioria dos produtores do Paraná e outros Estados brasileiros prejudicados pela seca.
Bolsões de estiagem A estiagem que vem provocando o acúmulo do déficit de chuvas está sendo provocada pelo fenômeno ‘‘La Niña’’, cuja característica é de primavera seca. Mesmo que comece a chover regularmente a partir de agora até início de fevereiro, o volume não será suficiente para a recuperação da vazão dos rios, informou o meteorologista Marcelo Brauer, do Simepar.
O problema que está ocorrendo dessa vez, é que chove em alguns municípios do estado e não chove em outros, criando bolsões de estiagem. Conforme levantamento feito pelo agrônomo da Seab, Agenor Santa Rita, todas as regiões apresentaram déficit hídrico entre julho e dezembro de 1999.
Em Cornélio Procópio, choveu 346,2 milímetros no acumulado de julho a dezembro; o normal seria de 550 a 725 milímetros no período.
Em Jacarezinho, choveu 330,4 milímetros; o normal seria 575 a 725 milímetros.
Em Londrina choveu 354,9; o normal seria de 650 a 825 milímetros.
Mesmo nessas regiões onde as chuvas ficaram bem abaixo do normal, ainda existem municípios onde praticamente não choveu nada. O pior mês desse período de estiagem foi agosto, quando as regiões de Apucarana, Campo Mourão, Cornélio Procópio, Curitiba, Ivaiporã, Jacarezinho, Londrina, Maringá, Paranavaí e Umuarama ficaram os 30 dias sem chuvas.
As regiões onde as chuvas estiveram próximas do normal, entre julho a dezembro foram poucas: Francisco Beltrão, Paranaguá e União da Vitória.No Paraná, previsão de supersafra, baseada em dados oficiais que não refletem realidade, irrita os produtores
SOJA NANICAO produtor Benedito Moreira compara a soja deste ano, já emitindo flores, com o tamanho que atingiria em condições normais. No detalhe: distúrbio fisiológico da planta falseia tamaho do prejuízo