País vai importar soja e derivados
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segunda-feira, 09 de junho de 1997
Vânia Casado Curitiba 
ArquivoEm excessoEmbarques de grão de soja nunca foram tão volumosos como este ano. Perda do valor agregado Apesar de estar colhendo este ano sua melhor safra de soja, em torno de 26 milhões de toneladas - um recorde de produção que deverá gerar uma receita de US$ 5,6 bilhões -, o Brasil terá de importar grão e derivados no segundo semestre. Estima-se que serão necessários 1,8 milhão de toneladas de soja em grão, 300 mil toneladas de farelo e 300 mil toneladas de óleo, devendo desembolsar, por isso, US$ 640 milhões.
Está previsto um quadro de escassez dos produtos do complexo soja a partir de agosto, quando se encerram as exportações e prevê-se a falta do produto para abastecer o mercado interno.
A informação é do economista Flavio Roberto de França Júnior, analista da agência Safras e Mercados, de Curitiba. Segundo ele, o País deverá exportar este ano cerca de 8 milhões de toneladas de soja em grão, que representa mais do que o dobro das exportações realizadas no ano passado (3,6 milhões de t). Esse excesso de exportações da matéria-prima bruta está reduzindo a atividade da indústria esmagadora, de 20,1 milhões de toneladas no ano passado para 18,2 milhões de toneladas esse ano, o que reduz a exportação de produtos com valor agregado maior.
Segundo o técnico, a proporção de crescimento nas importações esse ano é maior do que as exportações. A importação de grão, farelo e óleo terá um crescimento de 80% em relação ao ano passado, passando de US$ 350 milhões, para US$ 640 milhões. Já as exportações estão sendo elevadas em 27%, passando de US$ 4,5 bilhões no ano passado, para US$ 5,6 bilhões atualmente.
Outra consequência gerada pela elevação das exportações do grão, segundo França Júnior, é a redução das exportações de farelo e óleo, não por falta de demanda no mercado externo e sim em função da escassez do grão disponível para o esmagamento. Esta situação gera um desequilíbrio para o País que volta ser importante exportador de matéria-prima e deixa de exportar produto de maior valor agregado, explicou o técnico.
Para França Júnior, essa situação está ocorrendo em função da desoneração do ICMS das exportações que tornaram o grão produzido no Brasil o mais competitivo do mundo. Para se ter uma idéia, a soja brasileira em grão está sendo exportada por US$ 2,98 por tonelada, enquanto a Argentina exporta o produto por US$ 3,08 por tonelada. Com o farelo, ocorre o inverso. O Brasil exporta o produto a US$ 270 a tonelada e a Argentina a US$ 258 a tonelada.
A verdade é que a retirada do ICMS das exportações que está proporcionando melhores ganhos ao produtor e ao exportador, está provocando problemas para a indústria de esmagamento. Antes, quando a soja em grão era tributada em 13%, o farelo em 11,1% e o óleo 8%, a indústria tinha uma pequena margem de lucro para operar, explicou França Júnior. Agora essa margem não existe mais e o exportador ficou mais agressivo do que a indústria, acrescentou. Esse desequilíbrio tende a se agravar no ano que vem se o governo não apontar soluções para reverter o grau de ociosidade que está se instalando na indústria de esmagamento de soja, insistiu o técnico.
Um sintoma do quadro de excassez, segundo França Júnior, é que já existem indústrias brasileiras comprando soja dos Estados Unidos para entrega em outubro, quando a falta do produto no País deverá estar acentuada. O reflexo no mercado interno é que as cotações dos produtos dos complexo soja vão se manter aquecidas durante todo o segundo semestre até a entrada da próxima safra, em fevereiro de 1998. Até lá o limite de alta no mercado interno será sempre o valor da importação dos produtos, salientou França Júnior.
A única vantagem identificada pelo técnico é que o Brasil está exportando o grão no pico do mercado internacional e vai importar a preços mais baixos, quando a tendência das cotações na Bolsa de Chicago é de queda. Isso se não houver complicações com o clima, destacou.


