Campinas O ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, secretário-geral da Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento (Unctad), acredita que somente um crescimento econômico da ordem de 5% a 6% ao ano será capaz de absorver o alto índice de desemprego do Brasil, hoje em 13% da População Economicamente Ativa (PEA).
Ricupero afirmou que é justamente na questão do emprego que está a raiz do atual conflito no campo. A reforma agrária, argumenta, é um problema econômico porque os sem-terra são trabalhadores que não têm emprego nem na indústria nem no setor de serviços. Para esse trabalhador, segundo Ricupero, a única alternativa é um lote de terra que possibilite a construção de um barraco e a execução de algum trabalho. ''Se a economia não crescer nesses níveis, não há solução'', afirmou ontem Ricupero, durante simpósio sobre Negociações Comerciais no Instituto de Economia da Unicamp, em Campinas.
De acordo com o ex-ministro, a recuperação das exportações nos últimos meses é resultado apenas da recessão interna. O nível de capacidade ociosa na maioria dos setores exportadores é muito baixo, o que mostra que, se houver uma retomada do consumo interno, as encomendas para o exterior não poderão ser atendidas. As exceções são os setores automobilístico, siderúrgico e de papel e celulose.
Essa situação seria reflexo da falta de investimento industrial nos últimos 20 anos. Além disso, os investimentos em produção equivalem a apenas 18% do PIB, valor muito abaixo dos padrões internacionais. ''Exportar sem investir não leva ao desenvolvimento econômico'', ressaltou.
O secretário-geral da Unctad criticou o fato de haver no País muito mais discussões sobre negociações comerciais internacionais do que sobre como combater a capacidade ociosa da indústria. ''Há 50 seminários por ano sobre negociação, mas nenhum sobre a nossa capacidade de oferta'', ironizou o ex-ministro. E foi além: ''Só podemos negociar aquilo que temos para vender. E gostaria de lembrar que nenhum país se desenvolveu até hoje tendo apenas a agricultura como base econômica.''
Ricupero criticou a posição brasileira de focar a área agrícola nas discussões da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). ''É ilusão achar que só vamos nos desenvolver com agricultura. Ela é boa para a economia do País, mas os problemas reais não se resolverão com a abertura dos mercados externos à agricultura. Mesmo que tenhamos avanços significativos, ela não vai resolver todos os problemas'', ressaltou. Ele salientou também que o Brasil está ausente da lista de países exportadores de produtos dinâmicos, como máquinas, equipamentos, eletroeletrônicos e aparelhos ligados a telecomunicações.
Quanto ao futuro da Rodada Doha, Ricupero afirmou que o tempo de negociações é escasso, pois 12 prazos de diversas áreas de negociações não foram cumpridos. Pelo cronograma, a Rodada Doha deve terminar em 1º de janeiro de 2005.

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