Brasília – A histeria que tomou conta do mercado financeiro nos últimos dias mostra que, depois de suar a camisa para se diferenciar da Argentina, o Brasil se descolou dos seus próprios fundamentos. O clima político vem dominando os negócios e expondo fraquezas até então tidas como administráveis, como é o caso da dívida pública.
No governo, o discurso está unificado: não há nenhuma mudança substancial nos indicadores da economia que explique tamanho nervosismo. Mas, ainda assim, o Banco Central não consegue acertar na dose do calmante para reverter o quadro atual. ‘‘Alguns eventos novos ocorreram como a implementação do sistema de pagamentos, as mudanças nos fundos de investimento e a questão eleitoral. Nesse cenário, o mercado tem preferido manter a liquidez. Isso gera uma certa turbulência mas é passageiro’’, aposta o secretário-adjunto do Tesouro Nacional, Rubens Sardenberg.
‘‘Não há nada que justifique, só a preferência pela liquidez pode explicar’’, completa, se referindo à demanda menor do que o esperado no leilão de títulos prefixados do governo, com vencimento em outubro realizado anteontem.
Segundo Sardenberg, o que o governo vai fazer é ‘‘calibrar melhor os lotes’’ nos próximos leilões para ‘‘acomodar’’ essa situação. ‘‘Vamos fazer lotes menores para acomodar esse quadro. Os vencimentos em junho somam apenas R$ 8 bilhões e ainda temos um colchão’’, afirma.
O fato de o lote de R$ 2 bilhões não ter sido negociado integralmente contribuiu para aumentar o clima de nervosismo. Isso, apesar da inflação estar dando sinais de melhora, o déficit externo registrar queda e outros fatores positivos.
Para alguns investidores, o leilão foi um sinal de que o problema não é apenas 2003 mas que o governo poderá ter dificuldades de rolar a dívida pública. Para o ex-diretor de Política Econômica do BC Sérgio Werlang isso ‘‘é um absurdo total’’ já que o Brasil nunca teve dificuldade para rolar a dívida interna nem em 1989, quando a inflação estava altíssima.
Na avaliação dele, ainda há muito espaço para o governo encurtar o prazo de vencimento da dívida, que atualmente está em torno de 23 meses. Werlang credita a um erro ‘‘do pessoal do exterior que não entende nada de Brasil’’ o fato de o risco País estar tão alto.

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