São Paulo - O próximo presidente da República precisará incrementar os investimentos de longo prazo no País para que se possa aumentar a poupança como proporção do PIB e elevar o ritmo de crescimento do País com inflação sob controle. Esta avaliação é do secretário-geral assistente para Desenvolvimento Econômico das Nações Unidas, Jomo Kwame Sundaram. Ele acredita que o Brasil pode elevar de forma substantiva o padrão de vida de seus cidadãos, desde que a criação de empregos exija melhor aproveitamento educacional dos trabalhadores, o que será essencial para que a nação registre um salto de tecnologia.
A riqueza das nações, segundo Jomo, hoje requer não só juros baixos, câmbio equilibrado e boa gestão das contas públicas. Ele defende que o Estado amplie o contato com o setor privado a fim de ter domínio maior sobre as necessidades das companhias. ''É preciso que o governo dê às empresas a cenoura, que são os incentivos, que podem ser fiscais e tributários, e o porrete, que é a regulação'', comentou em entrevista à Agência Estado.
No caso do Brasil, há duas adversidades macroeconômicas que inibem a expansão do investimento de longo prazo. Uma delas é o juro real. ''Não há necessidade que estas taxas estejam ao redor de 5,5% ao ano. Em alguns anos, elas deveriam alcançar um patamar bem mais baixo, embora positivo. Talvez não superior a 1%'', comentou.
Um outro elemento que desestimula a expansão expressiva da Formação Bruta de Capital Fixo no País é o câmbio valorizado. ''O câmbio com valor muito alto tira o estímulo de quem deseja fazer investimentos em fábricas, pois o mercado pode ser suprido por mercadorias importadas, dado que é mais barato para o consumidor. É preciso harmonizar a boa competição para não gerar inflação e a geração local de empregos'', ressaltou.
A secretário das Nações Unidas está em São Paulo e amanhã fará uma palestra no seminário internacional Latin American Programme on Rethinking Development Econonics - Laporde 2010, que está sendo realizado nesta semana pela FGV. Como pensador keynesiano, Jomo acredita que o investimento estimula a poupança e não o contrário, como defendem economistas ortodoxos. Contudo, ele destaca que a Formação Bruta de Capital Fixo está baixa no Brasil, pois equivale a 18% do PIB. Tal marca está bem distante dos 40% do PIB alcançados pela China.
Jomo defende que a estratégia de desenvolvimento de um mercado emergente também pode se pautar pela frase ''proteção efetiva condicionada à expansão das exportações'', o que foi adotado por países localizados na Ásia, continente que conhece bem, pois nasceu na Malásia. Ele destacou que o Japão, Coreia do Sul e Taiwan cresceram com vigor devido a uma política governamental que combinou a substituição de importações e o incremento das exportações.
Para a autoridade das Nações Unidas, o Estado pode estimular os investimentos do setor privado com a melhoria significativa do nível educacional dos trabalhadores. Ele advoga que o Ministério da Educação poderia participar do treinamento de funcionários das empresas que solicitarem financiamentos oficiais de longo prazo. ''Desta forma, o empresário ''A'' vai desembolsar os recursos para ampliar sua fábrica, pois ele não vai temer que o concorrente ''B'' contrate o seu funcionário que recebeu um curso especial de qualificação técnica'', comentou. ''O empresário ''A'' vai aplicar os recursos que são requeridos à sua indústria, pois, caso ele perca o empregado, ele vai ao centro oficial para contratar um novo funcionário'', disse.
Mas a estratégia de expansão dos diversos setores produtivos não deve privilegiar somente as grandes corporações. Para ele, é preciso que o governo apoie as micro e pequenas empresas, pois são os maiores empregadores do País. Ele citou o caso da cidade de Bolonha, na Itália, onde o governo local, ''que era dirigido pelo Partido Comunista dos anos 1950 até os anos 1970'' promoveu a expansão das companhias de pequeno porte. ''O governo local cuidava não só do treinamento dos empregados destas companhias, mas auxiliava na infraestrutura e logística, como fornecer o transporte gratuito para que as empresas recebessem peças e pudessem enviar suas mercadorias para outras cidades'', disse.

mockup