A suspensão das importações de carne brasileira pelos Estados Unidos, Canadá e México representa perda que pode chegar a US$ 100 milhões/ano. Mas a queda de receita não é a principal preocupação da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec). O diretor-executivo da entidade, Enio Marques, disse ontem a Folha que teme mais o impacto sobre a imagem da carne bovina brasileira do que propriamente os prejuízos econômicos imediatos provocados pela suspensão da importação do produto pelos dois países.
O Canadá anunciou a medida na sexta-feira alegando que o Brasil falhou em responder as informações solicitadas pelos países do Nafta (Canadá, Estados Unidos e México) sobre o rastreamento da doença da vaca louca no País. Segundo o governo canadense, as informações enviadas não eram suficientes.
O diretor executivo da Abiec, Enio Marques, afirmou que ‘‘estava surpreso com a medida radical’’ anunciada pelo Canadá. Em sua opinião, a suspensão é uma tentativa de desqualificar o produto nacional na esperança de barrar a penetração da carne bovina nacional no Exterior. ‘‘Mas o Brasil, mais cedo ou mais tarde, vai abocanhar esse mercado’’, antecipou Marques.
Para ele, o caso se transformou mais numa questão diplomática entre o Brasil e o Canadá e menos numa questão puramente econômica. Ele frisou que a diplomacia brasileira precisa tentar solucionar rapidamente a questão. Marques ressaltou que o País não deve perder muito com a suspensão das exportações, ‘‘porque deverá negociar com outros mercados’’. Mas não citou quais seriam estes mercados.
Entretanto, analistas ouvidos pela Folha acreditam que, além da dificuldade em encontrar mercados alternativos, outros países, como o Reino Unido, poderão adotar idêntica restrição.
O diretor executivo da Abiec, acredita que a suspensão da exportação para EUA e Canadá não deve provocar alterações, sobretudo de preço, no mercado interno.
Mais incisivo foi o diretor do Departamento Agrícola da Sociedade Rural do Paraná (SRP), Pedro Branco. De acordo com ele, os mercados canadense e americano estão com receio porque ‘‘o Brasil está detendo um potencial enorme na produção de proteína animal e vegetal’’. ‘‘Eles querem frear a nossa explosão’’, completou, depois do embargo sobre a carne européia.
Branco criticou a demora do governo brasileiro em responder aos canadenses. ‘‘Nosso pessoal diplomático é muito lerdo e desconhece o nosso potencial’’, disse.
De acordo com ele, a medida canadense ‘‘até pode estar relacionada com a questão da Bombardier (embate entre as empresas de aviação canadense Bombardier e a brasileira Embraer por concorrência no exterior), mas tem também o medo da certificação européia da carne brasileira’’. Ele explicou que o gado brasileiro é o chamado ‘‘boi verde’’, alimentado com pastagem. Isso é um diferencial importante a favor da carne bovina nacional, uma vez que o gado europeu é criado com ração de origem animal, ‘‘uma dieta depravada’’ e que provocou todo o problema de contaminação do rebanho europeu pelo mal da vaca louca.

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