O Brasil perdeu US$ 8,3 bilhões de suas reservas internacionais em outubro. É a maior perda ocorrida, até hoje, em um só mês. Somente para contornar a crise mundial que chegou ao País no final do mês, o Banco Central foi obrigado a desembolsar US$ 7,14 bilhões. Mais US$ 1,16 bilhão foram gastos em pagamentos da dívida externa do governo.
Em valores totais, no entanto, a perda anunciada pelo Banco Central foi semelhante à que ocorreu depois da crise do México, em dezembro de 1994, e da crise cambial, em março de 1995. Somados aqueles dois meses, o Brasil queimou nas duas crises US$ 8,40 bilhões das reservas.
Ao contrário daquela época, quando houve fuga total dos recursos, em setembro as saídas ficaram em US$ 5,04 bilhões. Outros US$ 3,26 bilhões foram também comprados pelos bancos ao BC, mas esse dinheiro as instituições deixaram em suas carteiras.
Com isso, a fuga líquida de capital ocorrida em outubro foi de US$ 3,88 bilhões. Esse é o total, segundo dados do BC, dos recursos enviados ao exterior pelas instituições financeiras no período da crise. A diferença para os US$ 5,04 bilhões das saídas refere-se ao pagamento da dívida externa.
Na opinião do chefe do Departamento Econômico (Depec) do BC, Altamir Lopes, que divulgou ontem os novos saldos das reservas, a perda gerada pelas crises de três anos atrás foi mais grave porque, naquela época, o País dispunha de menos reservas. ‘‘As reservas eram de aproximadamente US$ 30 bilhões, o que torna o impacto da perda maior que agora’’, afirmou.
Com todo o movimento ocorrido no final do mês passado, o saldo das reservas caiu de US$ 61,1 bilhões para US$ 52,8 bilhões, considerando os recursos prontamente disponíveis, ou seja, o chamado conceito caixa. Em liquidez internacional, que inclui créditos a ser recebidos, as reservas passaram de US$ 61,9 bilhões para US$ 53,6 bilhões.
Assim, o País volta aos níveis de reservas que tinha em janeiro de 96. Lopes destaca, no entanto, que ‘‘a maior parte’’ do que os bancos deixaram em carteira ‘‘já voltou ao Banco Central’’.
No início da crise, porém, a chefe do Departamento de Operações das Reservas Internacionais, Maria do Socorro Carvalho, garantia a tranquilidade da situação lembrando que, desconsiderando os pagamentos de dívida externa a ser feitos, ‘‘as reservas cambiais já estavam com um crescimento de US$ 1 bilhão’’ em outubro. Dessa forma, pode-se concluir que, em outubro, as reservas em caixa chegaram a estar em nível superior a US$ 62 bilhões, o que resultaria em perda maior das reservas. Lopes garante, no entanto, que a perda total foi de US$ 8,3 bilhões.
Nas vendas de US$ US$ 7,14 feitas pelo BC, um total de US$ 2,09 bilhões foram no câmbio livre, que inclui balança comercial e aplicações em bolsas, enquanto os outros US$ 5,05 bilhões foram no câmbio flutuante. Ainda de acordo com os dados do BC, em outubro, a fuga líquida de recursos externos aplicados nas bolsas foi de US$ 556 milhões.
Esse resultado corresponde a ingressos de US$ 3,18 bilhões enquanto as saídas atingiram US$ 3,73 bilhões. Das aplicações de renda fixa saíram outros US$ 736 milhões, enquanto mais US$ 98 milhões deixaram outros fundos. O chefe do Depec insiste, no entanto, que esses números correspondem apenas a pequenas parcelas dos estoques das aplicações.
Enquanto os recursos externos em bolsa montam a US$ 33 bilhões o estoque dos fundos de renda fixa está em US$ 3,7 bilhões. ‘‘Nas bolsas a porta de saída é estreita’’, diz Lopes, apostando que ‘‘se todo mundo sair de uma vez, as ações viram pó’’.
No segmento de taxa livre, que considera os contratos de câmbio de exportação e de importação e, ainda, os fluxos financeiros, o chefe do Depec revelou que, até o dia 24 de outubro - na sexta-feira anterior à primeira semana de crise -, o saldo estava positivo em US$ 3,8 bilhões. No fechamento o mês, no entanto, foi registrado um déficit de US$ 151 milhões.

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