País perde US$ 3,7 bi com crise na Ásia
As reservas em moeda estrangeira do Banco Central sofreram queda de US$ 1,928 bilhão em junho - segundo mês consecutivo de baixa -, apesar do recorde de investimentos diretos, que chegaram a US$ 3,026 bilhões. Segundo o BC, as reservas caíram de US$ 72,826 bilhões para US$ 70,898 bilhões de maio para junho, pelo conceito de liquidez internacional, que considera o dinheiro prontamente disponível, títulos de exportação e créditos de médio e de longo prazos.
Pelo conceito de caixa, que inclui apenas o dinheiro prontamente disponível, as reservas caíram para US$ 70,060 bilhões. Com essa nova redução, a perda acumulada de reservas em dois meses é de US$ 3,758 bilhões. Em maio, o BC já havia registrado saída líquida de US$ 1,830 bilhão.
O volume de reservas é considerado um dado estratégico porque mostra até que ponto o país está vulnerável a crises cambiais ou a ataques especulativos, como os ocorridos na Ásia em 1997. Se as reservas são pequenas, o País tem menor poder de fogo para combater turbulências externas.
Três fatores explicam a perda de dólares em junho: amortizações da dívida externa, saída de capitais de curto prazo e condições desfavoráveis para novas captações de recursos no mercado internacional. Os pagamentos da dívida pública externa somaram US$ 1,085 bilhão, entre juros e amortizações, e a saída de capitais de curto prazo atingiu US$ 3,027 bilhões.
As captações brasileiras no exterior caíram para US$ 3,068 bilhões devido às altas taxas exigidas pelos investidores estrangeiros. Com os juros elevados, empresas privadas adiaram projetos de novas captações. O cenário externo não estava favorável, disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, referindo-se às crises da Rússia e do Japão.
Por outro lado, um fator positivo é o ingresso de US$ 3,026 bilhões para investimentos diretos (dirigidos à produção, como privatizações e instalação de fábricas), um capital considerado de boa qualidade. A qualidade do capital que ingressa no País também é considerada um indicador importante.
Quando as reservas são formadas por investimentos especulativos, o País está vulnerável a crises externas, pois os dólares podem ser repatriados rapidamente. Os investimentos diretos são considerados menos voláteis. Mesmo com perdas de dólares em dois meses seguidos, as reservas permanecem mais altas que antes da crise da Ásia, ocorrida em outubro, quando o BC registrava volume de US$ 61,931 bilhões.
As turbulências no mercado de câmbio fizeram o BC vender US$ 9,896 bilhões em apenas quatro dias, para evitar uma indesejável desvalorização do real. Passado o pico da crise, a equipe econômica adotou uma estratégia de atração de capital estrangeiro, com altas taxas de juros e facilidades para a empresas captarem empréstimos internacionais.
Isso fez as reservas crescerem US$ 22,483 bilhões em cinco meses, atingindo o volume recorde de US$ 74,656 bilhões em abril. De lá para cá, as reservas estão caindo.
Essa perda de dólares já era prevista pelo diretor de Assuntos Internacionais do BC, Demósthenes Madureira Pinho Neto, que atribui o fenômeno ao que chama de entressafra de privatizações.





