Se o Brasil vacinar o gado contra a febre aftosa na região de fronteira do Sul, o País poderá ter consequências negativas nas exportações de carne.
Segundo um diplomata da União Européia (UE), o bloco não aceita a entrada de produtos que tenham sido vacinados, pois, uma vez aplicada a dose, não existem formas para saber quais animais estavam doentes. ‘‘Nossa política é clara: não importamos gado vacinado’’, explica o diplomata.
Para evitar perdas com o comércio da carne, os países da própria UE são orientados pela Comissão Européia, em Bruxelas, a eliminar o gado contaminado. A explicação é de que, uma vez vacinado o gado, toda exportação do rebanho está comprometida.
No Brasil, os Estados do chamado Circuito Pecuário Sul - Rio Grande do Sul e Santa Catarina - discutem a vacinação do rebanho na fronteira com a Argentina e com o Uruguai como medida preventiva, depois do surgimento dos vários focos da doença nesses países. A idéia é evitar que o vírus entre no território brasileiro.
No caso do Sul brasileiro, 10% de todo o gado está situado na região onde a vacina será aplicada. O próprio ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, chegou a se opor à medida, temendo que o Brasil perdesse uma parcela das exportações. Depois, concordou com a vacinação, afirmando que o circuito não correria o risco de perder o status de região livre de aftosa sem vacinação.
O Mercosul anunciou que irá desenvolver uma estratégia coordenada para acabar com a febre aftosa na região. Segundo um funcionário da Comissão Européia, a UE estuda a possibilidade de destinar recursos para que técnicos europeus possam viajar aos países mais pobres para auxiliar no controle de doenças. Por enquanto, porém, não há nada acertado.
Na avaliação do comissário de Saúde e Proteção do Consumidor (espécie de ministro) da UE, David Byrne, as vendas brasileiras não aumentarão nem mesmo com o embargo à carne contanimada argentina. A parcela do mercado europeu abastecida pelos argentinos está sendo substituída pelos australianos que, na avaliação da UE, têm um dos melhores controles sobre questões sanitárias.
Além disso, o consumo de carne na Europa caiu significativamente desde o início da onda de epidemias que ataca a agropecuária na região. Doenças como a vaca louca e febre aftosa poderão resultar em novas barreiras para as importações de produtos agrícolas. Segundo Byrne, cresce a pressão dos consumidores para que haja um controle mais rígido da qualidade sanitária dos produtos que entram no mercado europeu.
Para ele, a segurança alimentar deve fazer parte dos debates da Organização Mundial do Comércio (OMC), que deve adotar regras mais duras. ‘‘É um tema que terá de ser tratado em uma próxima rodada de negociações’’.
Segundo Byrne, a União Européia está consciente de que medidas que garantam a segurança alimentar podem afetar as exportações dos países em desenvolvimento. Mas deixa claro: ‘‘não podemos reduzir o padrão dos alimentos’’. Para ele, uma das explicações para o surgimento das doenças no gado europeu teria sido a importação de animais da Ásia.
Se de um lado o surgimento das doenças pode gerar mais barreiras ao comércio, de outro, pode ter sido a gota d’água para a reforma da Política Agrícola Comum (PAC) da UE. Muitos argumentam que, ao subsidiar produtores ineficazes, a PAC criou uma agricultura artificial. Para reverter a situação, a UE irá iniciar uma campanha para que a produção de alimentos na Europa seja mais natural.

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