Depois da frustração nos resultados dos embarques brasileiros de 99, o governo concluiu que a apreciação da moeda nos últimos quatro anos não era o pior entrave ao crescimento das exportações. Maior estorvo, assegura agora a Camex (Câmara de Comércio Exterior), está no fato de que nem o governo, nem o setor privado se preocuparam algum dia com a produção orientada para outros países. Na linguagem oficial: nunca houve política de exportação no País.
‘‘O Brasil não tem oferta exportável. Exportar nunca foi uma política do País’’, afirma o embaixador José Botafogo Gonçalves, secretário-executivo da Camex. ‘‘Exportar é uma tarefa que exige ações de maior profundidade que o ajuste no câmbio.’’ Para Botafogo, ‘‘o setor privado tem uma falsa dimensão do que é exportar’’. O governo, por sua vez, ainda não conseguiu impor os embarques de bens como política prioritária. ‘‘O Brasil não tem oferta exportável. Os produtores se habituaram a embarcar apenas seus excedentes’’, afirmou o embaixador, que chefia o organismo responsável por coordenar a política de comércio exterior, mas que não tem nenhuma função executiva.
A tese da Camex é reforçada pela AEB (Associação Brasileira de Comércio Exterior). A entidade admite que, por razão de segurança, as empresas do País tendem a programar sua produção exclusivamente para o mercado interno. ‘‘Para atuar no exterior, o empresário tem de trabalhar com prazos mais longos de produção e de crédito e deve contar com maior previsibilidade. Portanto, precisa haver regras claras para o comércio exterior’’, disse José Augusto de Castro, diretor da AEB.
Ele observa que o comportamento do vendedor e do comprador de bens brasileiros é o oposto da atitude que esses mesmos agentes adotam em relação a mercadorias de outros países. O comprador acaba se adaptando ao produto brasileiro oferecido - à qualidade, ao preço, ao desenho, à quantidade etc. Senão, procura o similar de outra origem.
Em países que priorizam as exportações, o vendedor fabrica as mercadorias conforme as exigências do comprador final. Essa ‘‘adaptação’’ do consumidor, no exterior, às condições do produto brasileiro lembra a época anterior à abertura de mercado no Brasil. Até o começo dos anos 90, o consumidor brasileiro, no mercado interno, tinha também de se contentar com o que havia na prateleira dos supermercados.
Embora não seja tese nova dentro do governo, a ‘‘absolvição’’ do real sobrevalorizado pela Camex se deve à observação do desastre nos embarques brasileiros a partir de meados de janeiro, quando a política cambial mudou.
Botafogo argumenta que a desvalorização do real - histórica reivindicação dos exportadores ao governo - provocou um ‘‘efeito diametralmente oposto’’ ao esperado pelo setor. Em vez de estimular os setores exportadores, ao baratear o produto brasileiro no exterior, os embarques paralisaram. De olho no ganho adicional dos exportadores, parte dos importadores queria abocanhar uma fatia desse lucro. A outra parte decidiu suspender os contratos à espera do equilíbrio na taxa de câmbio.
Em janeiro, os embarques despencaram 24,7% em relação ao mesmo mês do ano passado. Em fevereiro, caíram 12,0%. Em março, 10,4%. Em abril, 19,0%. Como resultado, nos quatro meses do ano as exportações brasileiras somaram apenas US$ 13,747 bilhões. A cifra é 16,5% menor que a registrada no mesmo período de 98 e aponta o pior resultado do primeiro quadrimestre nos últimos três anos. Por conta desse desempenho, o saldo da balança comercial foi deficitário em US$ 779 milhões no período. O resultado nos 12 meses terminados em abril, um indicador do saldo do ano, ficou negativo em US$ 5,47 bilhões.

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