Com a privatização, ontem, da Malha Paulista, ex-Fepasa, o Brasil deixou de ter ferrovias estatais. Todas agora estão nas mãos do setor privado - a maioria e as mais importantes têm nos seus grupos controladores a Companhia Vale do Rio Doce, que se tornou uma das grandes forças do setor no País. A Malha Paulista foi arrematada por R$ 245,046 milhões, equivalentes a US$ 205,731 milhões, valor apenas 5% acima do preço mínimo.
Venceu o Ferrovias, liderado pela Vale do Rio Doce e com a participação da Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) e Funcef (empregados da Caixa Econômica Federal). Previ e Funcef controlam 40% do capital da Ferropasa (dona das ferrovias Ferronorte e Novoeste), empresa que ficou com 36% do capital total da Malha Paulista. Além disso, eles compraram cada um 6,04% do capital da malha privatizada e são também membros do grupo de controle da Vale, sendo a Previ a maior acionista individual da mineradora.
O único concorrente da associação liderada pela Vale no leilão, realizado no sistema de envelopes fechados, foi o consórcio Ferrovia Inteligente, formado pela Fao Empreendimentos (que tem participação na Estrada de Ferro Tereza Cristina, no Sul do País), Banco Ourinvest, Construcap CCPS, Tejofran de saneamento e Dartley Bank & Trust Company.
Este consórcio, entretanto, ofereceu somente o preço mínimo. Em seguida, o consórcio Ferrovias, da Vale, apresentou sua proposta e, por um erro de cálculo, acabou comemorando a vitória antes da hora.
É que, segundo as regras do leilão, uma diferença inferior a 5% entre as propostas obriga a disputa a recomeçar, abandonando-se o sistema de envelopes em prol do pregão de viva-voz. E pelas contas dos responsáveis pelo consórcio, a diferença em relação ao preço mínimo - que, eles estavam convictos, seria o lance do adversário -, superaria 5%, garantindo a vitória imediata.
Mas os computadores da bolsa indicaram que a diferença apenas esbarrava nos 5% e, portanto, abriu-se o leilão de viva-voz. Como o consórcio Ferrovia Inteligente não apresentou nenhum lance, o Ferrovias também não fez oferta e terminou ficando com a Malha Paulista pelo preço oferecido no envelope.
O vice-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), José Pio Borges, não considerou decepcionante o pequeno ágio - o próprio ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, teria expectativa de vender a ex-Fepasa pelo dobro do mínimo. Pio, contudo, não costuma fazer estimativas de ágio e disse que muitas vezes é até melhor que o preço de venda não seja tão alto quanto o vendedor gostaria. ‘‘No caso de um empreendimento deteriorado, como a Malha Paulista, pagar muito pela aquisição poderia deixar os novos controladores com menos dinheiro para investir na recuperação do negócio’’, explicou.
A ex-Fepasa pertencia ao governo de São Paulo, mas foi federalizada no processo de renegociação da dívida paulista. Com um prejuízo de R$ 1,4 bilhão no ano passado e um caixa que já acumulava, este ano, um rombo de R$ 270 milhões, a importância logística da Malha vinha sendo desperdiçada.

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