O embargo canadense à carne brasileira não vai arranhar a imagem do produto brasileiro no exterior e até pode ajudar os pecuaristas a aumentar suas exportações, acredita a diretora-executiva da Agência de Promoção de Exportações (Apex), ex-ministra Dorothea Werneck. Ela disse que, se em um primeiro momento o embargo levantou suspeitas de que o rebanho brasileiro poderia estar contaminado com a doença da vaca louca, essa desconfiança será transformada em algo bastante positivo para a imagem do produto brasileira tão logo a equipe de técnicos do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) reconheça que a doença não existe no Brasil.
‘‘Ao mesmo tempo em que o mal da vaca louca está bastante presente na Europa, teremos Estados Unidos, Canadá e México avalizando a boa qualidade da nossa carne’’, disse a diretora da Apex à Agência Estado.
Confiantes no resultado da análise do gado brasileiro, os pecuaristas do Rio Grande do Sul decidiram usar a certificação concedida pelo Nafta nas estratégias de promoção da carne in natura no exterior. Ayrton Pinto Santos, coordenador de projetos da área de negócios internacionais do Sebrae-RS, explica que, em razão da presença da Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB) em países da União Européia, as exportações daquela região têm diminuído. ‘‘Este é o melhor momento para abocanharmos, por exemplo, o mercado do Oriente Médio. Vamos aproveitar a certificação, virar essa situação a nosso favor e reforçar que não temos a doença’’, afirmou.
O presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes e Afins do RS, José Alfredo Knorr, acredita que as exportações do setor devem aumentar assim que os técnicos do Nafta divulgarem os resultados da análise que terminou no fim de semana. No ano passado, foram exportadas 55 mil toneladas de carne do Rio Grande do Sul, 70% do tipo industrializado, para Estados Unidos e Europa. ‘‘Assim que tivermos a aprovação dos técnicos norte-americanos, vamos partir para a trabalhar a imagem do nosso produto’’, afirmou.
Por coincidência, o Sebrae-RS encaminha nesta semana à Apex a segunda fase de um projeto de promoção da carne brasileira no exterior, realizado em conjunto com o sindicato e a associação dos exportadores. O alvo do projeto são os países árabes (Argélia, Emirados Árabes, Egito, Arábia Saudita e Marrocos), que importam carne sobretudo da União Européia.
O programa inclui, também, a adoção de critérios de qualidade para exportação e a tentativa de sensibilizar mais empresas a vender ao Exterior. A proposta a ser levada à Apex inclui, ainda, a participação na feira alemã de Anuga. O primeiro programa de promoção de exportações de carnes do RS, o South Brazilian Beef, durou quase dois anos e incluiu promoção nos Estados Unidos e no Chile - o projeto ficou em pouco mais de R$ 500 mil, divididos entre Apex, Sebrae e produtores.
A se julgar pela fraca repercussão do embargo canadense contra a carne brasileira entre o público dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, a imagem do produto brasileiro no exterior sai intacta do imbróglio. ‘‘O impacto do boicote na imagem da nossa carne foi zero aqui nos Estados Unidos’’, disse o embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa.
Segundo o diplomata, as poucas notícias que chegaram ao país, distribuídas por agências, tratavam do contencioso dentro de um contexto comercial, não fitossanitário. ‘‘Nem rádios nem TVs repercutiram o assunto. A população dos Estados Unidos praticamente nem tomou conhecimento do boicote’’, reiterou Barbosa.
Em Londres, a embaixada afirmou que o embargo não teve qualquer destaque no noticiário geral. ‘‘Foram publicadas algumas matérias pequenas no Financial Times, mais voltado ao setor empresarial. O grande público nem ouviu falar do assunto’’, afirmou um diplomata da embaixada. Ele alertou, no entanto, para que a promoção da carne brasileira não seja muito agressiva neste momento na Grã-Bretanha.
‘‘É preciso avaliar se uma campanha da carne brasileira com base na ausência da doença da vaca louca será oportuna, pois essa publicidade vai se dar em cima de uma tragédia que se abateu sobre o gado britânico e o europeu’’, completou.
Rubens Barbosa disse que devem ser retomadas, em breve, as negociações entre Washington e Brasília para acabar com as barreiras fitossanitárias que impedem a carne brasileira in natura de entrar nos Estados Unidos.
A preocupação com a febre aftosa é a principal barreira contra a carne brasileira. As negociações estão se arrastando por algum tempo. Depois de um grande avanço, o surgimento de foco de febre aftosa no País no ano passado retardou as negociações. Uma nova missão técnica dos EUA visitou o País, e, agora, as expectativas são de retomada do diálogo. ‘‘É tudo uma questão técnica, precisamos convencê-los de que nossa carne não vem de áreas que têm aftosa’’, afirmou.

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