O potencial de crescimento do mercado brasileiro de veículos, a volatilidade da economia e o desafio da concorrência têm agregado valor às carreiras de executivos estrangeiros com passagem pelo Brasil e feito do País um trampolim no salto em direção à cúpula da indústria automobilística mundial.
‘‘Aqui se aprende mais em um mês que em dois anos nos EUA’’, resume o presidente da subsidiária brasileira da General Motors, Frederick Henderson, que assumiu em maio de 97 o comando da terceira maior operação da montadora no mundo e está deixando o País para dirigir as Operações Regionais da AL, África e Oriente Médio (LAAM), além de cumular o cargo de vice-presidente mundial da GM.
Homem de finanças, Henderson iniciou sua carreira na GM como analista financeiro, em 1984. Durante os três anos em que dirigiu a GMB, o executivo de 42 anos conviveu com as crises asiática e russa, em 97 e 98.
Na opinião do presidente da GMB, a volatilidade do mercado brasileiro e a grande concorrência levam ao aprendizado da rápida tomada de decisões. ‘‘Aqui um executivo tem que aprender cultura, língua, política, economia e concorrência com mais rapidez’’, sustentou. Para Henderson, o mercado brasileiro é uma espécie de laboratório. ‘‘O País me ensinou o que é jogo de cintura’’, conta o executivo, que aprendeu também a ‘‘tropicalizar idéias’’. Seus antecessores, Richard Wagoner e Mark Hogan, ex-presidentes da filial do Brasil, hoje integram a cúpula da companhia.
O atual chefe mundial das operações da GM, Richard Wagoner, de 47 anos, foi tesoureiro e diretor-executivo de finanças da subsidiária brasileira nos anos 80 e voltou ao País como presidente, entre 91 e 92. Depois de 23 anos na GM, Wagoner assumiu em 98 o posto de principal executivo da maior indústria automobilística do mundo, com faturamento anual superior a US$ 175 bi.
Sucessor de Wagoner na presidência da GM do Brasil, Mark Hogan, comandou a filial brasileira entre 93 a 97 e deixou o País para assumir a presidência das Operações Norte-americanas para carros pequenos. Hoje, preside a e-GM, unidade de comércio eletrônico da companhia. A passagem de Hogan pelo Brasil não se limitou ao campo profissional: dois dos três filhos do executivo foram adotados no País.
A passagem pelo Brasil não agrega valor apenas aos currículos dos executivos da GM. Atual vice-presidente do Grupo Renault, o belga Pierre-Alain de Smedt esteve à frente da presidência da Volkswagen do Brasil entre 90 e 96. Durante sua administração, a montadora alemã redimensionou sua estrutura no País e manteve inabalável a liderança no mercado brasileiro.
Diretor mundial de Qualidade da Renault, o francês Pierre Poupel também carimbou seu passaporte no Brasil, onde trabalhou por quatro anos como presidente da subsidiária brasileira da marca. Poupel comandou o projeto de instalação da fábrica da montadora em São José dos Pinhais, no Paraná. Em sua opinião, a mentalidade dos europeus é mais resistente a mudanças. ‘‘Eles não podem aceitar desafios como uma coisa normal’’, sustentou. ‘‘O brasileiro tem espírito jovem’’.
O executivo brasileiro que atualmente mais chama a atenção na indústria automobilística mundial também ocupou um cargo de direção no Brasil. Carlos Ghosn, chefe das operações mundiais da japonesa Nissan, foi diretor da subsidiária brasileira da Michelin, fabricante francesa de pneus, entre 85 e 89. Filho de uma francesa com um brasileiro descendente de libaneses, Ghosn, nascido em Rondônia há 46 anos, cresceu no Rio de Janeiro e já morou nos EUA e na França. Em 96, Ghosn obteve uma cadeira no comitê executivo mundial do Grupo Renault e, em 99, assumiu as operações na Nissan, a segunda maior montadora do Japão.
O brasileiro, que passará a presidir a companhia no próximo mês, tem em mãos a difícil missão de reerguer a montadora, que acumula dívidas bilionárias. A empresa, na qual a francesa Renault tem participação de 37%, apresentou prejuízo líquido de 6,9 bi de euros em 1999 e prevê prejuízo líquido de 600 mi de euros este ano.

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